Vagina Cartoon. Source : vagin png 3

Uma Feminista no Ginecologista

Aconselho aos(às) leitores(as) que se incomodem com descrições honestas sobre o corpo humano, e em particular sobre vaginas e aparelhos adjacentes, que fechem de imediato ou nem abram esta página. O texto que se segue não foi submetido a filtros.

Quantas vezes se deve visitar o(a) ginecologista, e quando se deve começar? Em 28 anos de vida, já ouvi todo o tipo de respostas a estas perguntas. Há quem diga que é logo após o primeiro período que se deve visitar o(a) ginecologista. Outros, dizem que é assim que se começam a tomar contraceptivos, e outros ainda que é na atura em que nos tornamos sexualmente activas(os). Eu, pessoalmente, nunca tinha ido a uma consulta de ginecologia, inicialmente por não achar necessário e depois porque no Reino Unido, onde vivi dez anos, os serviços de ginecologia públicos estão reservados para as grávidas. As 400 libras que me pediram no privado por uma consulta de rotina deixaram a hipótese absolutamente fora de questão. Entretanto mudei-me para Espanha, com acesso a seguro de saúde através da empresa para a qual trabalho. Quando disse à médica da medicina do trabalho que nunca tinha ido a uma consulta de ginecologia ela aconselhou-me, horrorizada, a marcar uma imediatamente. E assim fiz. A minha primeira consulta de ginecologia foi na passada Sexta-Feira e eu passei os dias anteriores à mesma em plena ansiedade.

Comecemos pela preocupação que me assolou primeiro, quando a senhora da recepção me pergunta, ao marcar a consulta, se tenho preferência em ser atendida por um médico ou uma médica. A feminista que reside no meu cérebro grita-me aos ouvidos que não faz diferença – e não faz mesmo – mas, antes que eu a pudesse ouvir, já tinha dito que queria ser vista por uma mulher. A verdade é que a presença e o toque de um homem desconhecido numa situação de tamanha vulnerabilidade me deixa altamente desconfortável e insegura. Ao longo da vida foi-me repetido e demonstrado vezes sem conta que não devo confiar a minha intimidade a um homem dada a elevada probabilidade de ela ser abusada, e de o abusador sair impune ou, até, ser defendido. Num contexto médico, a linha entre o que é ou não admissível pode dissipar-se. A dinâmica de poder torna o consentimento muito mais fácil de persuadir e muito mais difícil de retirar. Assim, deparando-me com a discrepância entre o Mundo em que eu quero viver e o Mundo em que de facto vivo, escolhi ser vista por uma mulher.

Mas nem isso me deixou mais descansada. Ser atendida por uma mulher não mudaria o facto de que teria de me despir, deitar-me numa maca com uma perna para cada lado, e ter alguém a mexer e inserir objectos na minha vagina. Quais e quantos objectos, e de que forma ou até onde eles seriam inseridos eu não fazia ideia, nunca tendo ido a uma destas consultas. Mais ainda, porque o patriarcado não dá tréguas, será que me devia depilar? Com certeza a médica não faria comentários se eu não me depilasse, mas será que me julgaria silenciosamente? Será que preferiria que eu me depilasse? O meu cérebro feminista volta a gritar em pleno que a depilação não é um dever. Que a pressão da depilação é só mais uma forma de controlo sobre o corpo feminino. Desta vez, deixei o grito feminista ganhar. Apresentei-me na consulta sem ter feito qualquer esforço de policiar a aparência dos meus pêlos.

A consulta começou com as perguntas do costume. Se sou saudável, se há algum historial de doenças na minha família, especialmente de cancro da mama ou do útero, se tomo medicamentos, se o meu período me vem todos os meses, se é regular. ‘É regular, sim’, respondi. A verdade é que é regular uns meses mais que outros, mas o meu espanhol ainda não chega para entrar nesses detalhes. ‘E é regular da mesma forma quando toma a pílula ou deixa de a tomar?’ Pronto, lá tive de fazer figura de ursa com o meu pobre espanhol para lhe explicar que não, nem sempre, e que tive problemas no início do ano. Expliquei tudo o mais direitinho que consegui, e ela não pareceu preocupada. Mas depois perguntou-me quando tinha sido a minha última consulta de ginecologia e quando lhe disse que era a primeira da minha vida arregalou os olhos. ‘Você é sexualmente activa há mais de dez anos e toma a pílula há ainda mais tempo, e nunca foi a uma consulta de ginecologia?’ De repente, as tais perguntas sobre quando teria sido a altura certa para esta consulta estavam respondidas: há cerca de dez anos anos atrás. ‘Quem é que lhe deu a pílula?’ A Dr. Carmen parecia sugerir que eu tinha conseguido o medicamento no mercado negro, mas expliquei-lhe que no Reino Unido os médicos de família dão as pílulas mais ou menos como se fossem pintarolas, sem ser preciso nenhuma consulta de coisa nenhuma. Só precisava de lá ir e dizer que queria a pílula, perguntavam-me se eu tinha dores de cabeça regulares, eu dizia que não, e depois de me voltarem a dizer que eu devia perder peso lá me passavam a receita para uma caixa de um ano de pílulas. O choque da Dr. Carmen ficou claríssimo no seu silêncio e na forma como baixou os olhos de volta às suas notas.

Finalizado este processo, pediu-me que me despisse na totalidade. ‘Los calcetines no hace falta que los quites’. Vá lá, pelo menos pude ficar com as meias para me aquecer os pés. Depois lá me deitei na maca, uma perna em cada uma daquelas coisas horrorosas que nos deixam numa posição de extrema vulnerabilidade, tal frago à espera da brasa. Assim que me tocou com as mãos frias, por reflexo espalhou-se um espasmo pelo meu corpo. A Dr. Carmen acalmou-me, lá me disse o que estava a fazer, que tinha de inserir algo para manter o meu cérvix aberto o suficiente para ela poder recolher uma amostra para o Papa Nicolau (que é o nome que deram ao exame, acalmem-se os adeptos das teorias da conspiração, que não há nenhum Papa com fetiches estranhos a receber células dos cérvices de mulheres por todo o Mundo). Não deve ter demorado mais que 5 minutos, e não foi mais que um leve desconforto. Vistas bem as coisas, dado que este exame pode detectar cancros e outras doenças graves, valeu a pena o tempo. Assim que estava feito, quis tirar as pernas dos apoios e sentar-me, mas ela voltou a mandar-me para a posição em que tinha estado. Ainda não tinha acabado a procissão de coisas que ela tinha de inserir em mim.

Seguiu-se uma ecografia, que eu pensei que ia acontecer na barriga como fazem com as grávidas. Mas, afinal, também aqui foi preciso uma sonda inserida na minha vagina. Mas, para ajudar ao processo, a médica colocou as imagens do interior do meu útero num ecrã que eu pudesse ver. Tudo o que eu vi, no entanto, foram umas imagens mais ou menos cinzentas que só me lembraram a estática das televisões antigas sem sinal. A Dr. Carmen, no entanto, dentro de segundos soube dizer que o meu período estava para breve. Não consegui esconder o entusiasmo científico e disse: ‘Sim! Você consegue perceber isso só por essa imagem?!’ Achou-me graça e explicou-me o que estava a ver.

Confesso que fiquei de tal forma maravilhada com este momento de me ver como nunca me tinha visto, graças às proezas da ciência, que quase me esqueci da sonda. Mostrou-me como não tinha nenhum pólipo, mostrou-me o meu ovário direito mas, quando quis mostrar-me o meu ovário esquerdo, já não conseguiu, por muitas voltas que desse à sonda. ‘Devo estar preocupada?’, perguntei. ‘Não, às vezes acontece, o seu ovário esquerdo está por detrás do útero, eles mexem-se. Mas não há indícios de que haja nenhum problema.’ Mais uma vez dei comigo numa estranha situação de deslumbramento face ao conhecimento – levou 28 anos para eu aprender que os ovários se mexem e que o meu ovário esquerdo estava atrás do meu útero! – enquanto alguém segura uma sonda dentro de mim. Há situações muito surreais na vida, e esta foi uma delas. O resto da consulta foi simples: um exame rápido a cada uma das mamas e finalizar a papelada para a amostra do meu Papa Nicolau ser processada pelo laboratório.

Fiquei a pensar nesta consulta imenso tempo após ter acabado. Uma coisa que me levou tanto tempo a fazer, e da qual tive tanto receio, tornou-se uma experiência muito positiva apesar da estranheza. Se, como eu, têm negligenciado a visita à(ao) ginecologista, aconselho-vos que marquem a vossa consulta. Não só por uma questão de saúde, ou de fertilidade, e não de todo por uma questão de dever, e muito menos por dever de fertilidade – esse, que não existe. Mas porque para termos controlo e agência sobre o nosso próprio corpo, para que possamos exercer o nosso direito de decisão informada sobre o mesmo, é importante que tiremos tempo para o explorar, para o conhecer, para o estimar, para o cuidar. Esta consulta levou-me mais uma vez a reflexões sobre a importância da relação de cada um com si mesmo. A relação física de cada um com si mesmo – e sim, estou a falar também, mas não só, de masturbação.

Em tantas coisas o corpo das mulheres é policiado e há tantos tabus e assuntos secretos. Quando cheguei à recepção da clínica dei por mim quase a sussurrar a palavra ‘ginecologia’ da mesma maneira que ainda dou comigo a esconder pensos higiénicos e tampões como se estivesse a traficar droga. No que toca à gravidez, por exemplo, uma fase de suposta etérea felicidade, há um universo paralelo de drásticas alterações no corpo que inevitavelmente surpreendem as mulheres a quem nunca ninguém tinha dito que estas coisas acontecem. Há tanta informação que fica por dizer no currículo da escolaridade obrigatória, tantas coisas que a sociedade omite por vergonha e nojo daquilo que é ser mulher – e ser mulher não é só ter uma vagina, um útero, o período. Há tantas decisões sobre o nosso corpo que querem fazer por nós. Tirar tempo para conhecermos verdadeiramente os nossos corpos de mulher, de todas as mulheres, e reclamar sempre o nosso direito de agência sobre o mesmo, é um revolucionário acto feminista.

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