EUA Eleições 2020: só acabam quando acabarem

Seria provavelmente preciso ser-se um eremita para não saber que esta semana têm lugar as eleições presidenciais dos Estados Unidos da América. Digo esta semana, e não ontem, porque a contagem dos votos está demorada – como era esperado – e os resultados finais podem bem demorar vários dias a ser oficiais. Mais, talvez semanas, se algum dos candidatos decidir contestar os resultados.

Na noite de 3 de Novembro de 2020, Terça-Feira, fui dormir sem grandes expectativas, mas com uma esperança escondida de que os EUA votassem no bom-senso: por muito que Joe Biden não fosse o meu candidato perfeito, é pelo menos uma pessoa com quem se pode debater sem ficar completamente frustrado pelos esquemas, as mentiras, as desinformações, os contra-sensos, do actual presidente dos EUA. E, portanto, com Joe Biden pelo menos podemos trabalhar. Na manhã de Quarta-Feira, quando fui ver o progresso das eleições, tive duas reacções imediatas: primeiro, uma tristeza enorme de ver que os EUA ainda batalhavam, depois de tantas horas, por esse voto no bom-senso. Não devia nunca ter sido uma corrida tão renhida. Depois, fiquei ainda mais preocupada porque, avaliando a matemática, Trump tinha ainda muita margem de manobra para ganhar as eleições.

É importante relembrar que os votos nos EUA funcionam de forma diferente do que estamos habituados em Portugal. Nas eleições portuguesas, cada voto vale por si e a percentagem final de votos em cada partido é directamente convertida em lugares no parlamento (nas legislativas) ou em votos para um(a) candidato(a) (nas presidenciais). Nos EUA, cada Estado tem um determinado peso com base no seu tamanho. Por exemplo, o Estado da Califórnia vale 55 votos, enquanto Montana vale 3. O(A) candidato(a) que ganha a maioria dos votos na Califórnia recebe 55 votos, o que ganha a maioria dos votos em Montanha recebe 3. Assim, Estado a Estado, os votos são contados e acumulados, e o candidato que chega aos 270 votos ganha as eleições. Desta forma, é perfeitamente possível que um(a) candidato(a) ganhe a maioria dos votos totais no país, mas ainda assim perca as eleições por não ganhar os votos nos Estados chave. De facto, é isto que significa quando se fala de Hillary Clinton ter ganho o voto popular em 2016: juntando os votos de todos os Estados, a maior percentagem de votos foi dela, mas a combinação de Estados ganhos não a permitiu ganhar os 270 votos necessários.

Quando vi os resultados pela primeira vez, pensei que Trump tinha, mais uma vez, sucedido em saber jogar este jogo – os números àquela hora sugeriam que ele ganharia os votos dos Estados chave. No entanto, conforme mais votos se foram contando, e especialmente conforme se começaram a contar os votos postais, os votos para Biden começaram a aparecer. Devido à pandemia, muito mais pessoas quiseram votar à distância em vez de se deslocar aos locais de voto e, por isso, houve muito mais votos por correio do que é comum. Esta é uma das razões pelas quais a contagem dos votos está a demorar mais tempo este ano do que é normal mas, para além disso, houve mais gente a votar no geral: em 2016, qualquer coisa como 50 milhões de americanos foram votar, enquanto que este ano o número foi acima dos 100 milhões. Parece que os últimos quatro anos acordaram os americanos para a importância e a fragilidade da democracia, bem como para o valor do seu direto ao voto.

A esta hora, quando são cerca de quatro da tarde nos EUA, o resultado final ainda não é sabido, mas parece que Joe Biden poderá vir a ser o próximo presidente dos EUA, graças a uma das mais infinitésimas nesgas com que alguém pode ganhar. Veremos. Mas porque é que isto interessa fora dos EUA? Interessa porque, quer gostemos quer não, o que acontece nos EUA tem o poder de nos afectar a todos – esse é um facto, por muito que seja um facto que não me agrada. O que acontece nos EUA, o que acontece com a economia dos EUA e com tudo o que a possa afectar, tem impacto que se sente pelo Mundo. É com o dólar americano que se define o preço de um barril de petróleo, e essa referência afecta não só o preço da nossa gasolina, mas da nossa comida e até as taxas de juro dos nossos créditos. Mais ainda – e, para mim, mais importante – o que acontece nos EUA interessa porque o país tem servido de bússola para o resto do Mundo, de certa forma definindo, ou pelo menos guiando, o tom da diplomacia e a direcção do progresso mundial. Correndo o risco de afirmar o óbvio: o que acontece nos EUA tem repercussões muito reais a nível mundial. E, por isso, sim – interessa saber sobre as eleições dos EUA.

Sou de opinião que os quatro anos de (des)governo de Donald Trump nos EUA representam tudo aquilo que eu rejeito: protecção dos mais ricos em detrimento dos mais desfavorecidos, um sistema de bónus e desregulamentação de grandes empresas, rejeição da ciência, racismo, misoginia, desonestidade, e uma longa lista de outras coisas que se posicionam algures num espectro que vai de ‘desacordo político’ a ‘absolutamente desprezível’. Tudo isto, e o facto de que tentar falar com Trump é mais difícil do que falar com uma criança de quatro anos a fazer birra: não há lógica nem argumento que resista, nem paciência que aguente. Estou, assim, esperançosa que a agora aparente possível vitória de Biden se concretize, por muito que tenha também com ele os meus desacordos políticos.

Mas uma vitória de Biden nestas eleições não é uma vitória. E não é um ponto final num pesadelo – pelo contrário. Em primeiro lugar, Trump já deixou claro que não vai sair do caminho tão facilmente: ele não gosta de perder e já começou os seus movimentos para refutar os resultados caso seja derrotado. De acordo com a lei dos EUA, Trump não tem de conceder oficialmente a vitória a Biden para ela ser válida, mas se sabemos alguma coisa deste presidente é que ele tem gosto em bater o pé. E que tem as suas milícias em ‘standby’. Não temos de recuar muito na história, nem procurar muito por exemplos de líderes que, rejeitando a sua derrota eleitoral, se recusam a abandonar o poder e iniciam períodos de extrema instabilidade política e social, e até de violência e guerra civil. Esperemos que este não seja o futuro próximo dos EUA, mas não esqueçamos que a possibilidade não é tão remota assim.

Em segundo lugar: se ontem eu tinha medo da reeleição de Trump, hoje eu tenho medo que a eleição de Biden nos dê uma falsa sensação de missão cumprida que nos distraia, como distraiu a eleição de Obama. ‘Vencemos o racismo’, pensámos – e estávamos errados. A (possível) vitória de Biden, que será por uma nesga, deixa a nu a verdade: cerca de metade da população dos EUA concorda com os valores do actual presidente. Precisamos urgentemente – nos EUA e no Mundo – de encontrar formas de voltar a falar uns com os outros. Precisamos voltar a encontrar aquele sítio sagrado onde nos voltamos a unir enquanto seres humanos. Precisamos desesperadamente de encontrar fóruns de debate, espaços de conversa, arenas de discussão produtiva, de trabalho. Precisamos voltar a encontrar-nos uns aos outros. Não podemos sair desta eleição tirada a ferros gritando ‘toma!’ para o outro lado, rindo na cara uns dos outros, tribalizando a política e as interacções entre as pessoas. Se for ganha, esta batalha é apenas o início de anos, talvez décadas, de árduo trabalho. Não podemos dar-nos ao luxo de nos retirarmos, baixar a guarda, limpar as mãos, decidir que está feito. Não está. Por todo o Mundo se perdem, hoje, direitos que achávamos conquistados e garantidos. A própria democracia desvanece-se-nos por entre os dedos. Não estamos em tempo de festejo: estamos em tempo de vigília, e de luta. Onwards.

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