Onde é que vocês andam?

Estou convencida de que apregoar moralidade deixou de ser, se alguma vez foi, eficaz para incitar acção nas pessoas. Também sou de opinião de que, para ser verdadeiramente democrática, a decisão de tomar uma atitude quanto ao que quer que seja tem de ser verdadeiramente informada, e tomada livremente. Embora não me sinta muito confortável no papel de pregadora, o infinito scroll down no Facebook dos últimos dias leva-me a querer perguntar o seguinte: jovens da minha idade, novos adultos a quem só há pouco deram a responsabilidade de mudar o Mundo, vocês que eram a esperança do Mundo de ontem – onde é que vocês andam?

Este ano de 2020 vai ficar para a História como um ano de intensa inquietação que (espero) vai levar a profundas mudanças no Mundo: uma pandemia declarada, uma grave crise económica (a segunda em pouco mais de dez anos), a luta pela democracia e contra o domínio chinês em Hong Kong, a continuada luta da comunidade negra dos EUA pelos direitos humanos que são seus e lhes são negados (atinge-se agora um clímax do movimento anti-racista), o aperto cada vez mais ameaçador da extrema-direita também nos EUA, no Brasil, na Hungria e até em Portugal, e as igualmente violentas ditaduras da extrema-esquerda, os ataques constantes à democracia. E ainda não resolvemos problemas antigos, como o conflicto israelo-palestiniano e a violência na faixa de Gaza, tanto quanto estamos a anos-luz de resolver os mais recentes, como o descontrolo da nossa produção de lixo, principalmente plástico, e a crise climática. O Mundo está a passar por um período drástico de transformação – se essa transformação se torna destruidora ou renovadora depende de nós. E vocês, gente da minha idade, a quem há pouco foi dado o poder de voto e em quem o Mundo um dia depositou a esperança de um futuro melhor – onde é que vocês andam?

Salvo raras excepções, nas variadas redes sociais vejo publicações de banalidades, de mais uma foto ao Sol, de mais uma foto no treino, mais um meme sem jeito, uma anedota, um desafio qualquer que envolve shots ou baldes de água. E o que eu queria saber de vocês é o que vocês pensam do Mundo, o que vocês acham e o que reflectem do que se passa à vossa volta. Queria saber que autores andam a ler e o que aprenderam com eles, queria que me dissessem qual é o papel do Estado, que me falassem da vossa noção de identidade e igualdade, queria saber o que têm a dizer sobre o aborto, a eutanásia, a legalização de drogas, a xenofobia, a mutilação feminina, o racismo, o feminismo, o capitalismo, a religião, a homofobia, a educação, a saúde… Entristece-me que não falemos disto. Entristece-me o vosso silêncio. Bem sei que a vida não passa (ou não devia passar) só pelas redes sociais, mas nem só nas redes sociais observo este vazio. Entristece-me a vossa ausência de espírito, a vossa ausência de presença no espaço de debate público. A vossa sonolência, o largarem mão do vosso futuro e do vosso papel em desenhar o Mundo que vão deixar à geração que se segue – a geração dos nossos filhos.

Malta da minha idade, vocês sabem que a nossa faixa etária, historicamente, lidera revoluções? Qual é a vossa revolução? A vossa causa? Sabem como alcançar e organizar as vossas comunidades para o interesse comum? Sabem mobilizar as pessoas? Vocês votam? Qual é o país que querem? O Mundo que querem? Como se propõem a alcançá-lo? Qual é o vosso propósito? Como é que o Mundo vai ficar melhor amanhã por vocês terem vivido nele hoje?

Entristece-me esta letargia de uma geração a quem chamaram ‘à rasca’ e que vive subjugada ao peso insuportável de viver sem perspectivas de futuro. Deixámo-nos corroer pela cultura da compra e venda das coisas, das pessoas, dos momentos e das emoções, nem sempre por dinheiro – às vezes por tão pouco como mais um like, mais um click. Vivemos a vida por um ecrã sem olhar à nossa volta, retidos no ritmo do scroll down incessante, do mudar do Insta para o Facebook, depois para o Twitter e de volta ao Insta, depois para o TikTok. Estamos desanimados, sem direcção nem propósito, derrotados, a sobreviver uma vida de escravatura ao trabalho e às contas. Mandaram-nos esquecer os idealismos e fizeram-nos acreditar que esta balela do carpe diem nos fará felizes – mas sem um objectivo para a vida, vivemos para quê?

Vamos falar do que interessa. Vamos tornar a pausa para o café na esplanada a nossa oportunidade de discutir e planear o futuro conjunto – somos livres, temos o poder de o fazer. Não tenham medo de ser vulneráveis e ter conversas difíceis, não tenham medo de não saber tudo: aprendam uns com os outros e com outras pessoas, fora dos vossos ciclos imediatos. Tragam conteúdo às conversas com as cervejas, não tenham medo nem nojo, abracem o desconforto, o conflicto e debate saudáveis. O mundo é nosso. Tenhamos coragem de o imaginar ambiciosamente melhor do que o temos, e construamos um futuro para quem vier a seguir.

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