Vocês sabem lá o que é ser manso

Farto-me de ouvir que o povo português é manso. Que aceita todas as trafulhices por parte de quem o governa, que baixa a cabeça e segue em frente, que não esperneia e não se faz ouvir. Não pude deixar de pensar nisto durante a semana que passou, durante a qual assisti a um dos maiores teatros políticos de sempre – e fiquei absolutamente incrédula com a capacidade de comer e calar do povo britânico. Acompanhem-me nesta tragicomédia.

Deixem-me primeiro apresentar-vos Dominic Cummings, um conselheiro (não eleito) do primeiro-ministro britânico, Boris Johnson. A única especialidade que se lhe reconhece é ter sabido organizar esquemas, hoje já sabidos ilegais, para minar informação privada das redes sociais e assim ajudar a campanha Vote Leave a conseguir a vitória do Brexit (podem ver o filme com o mesmo nome na Netflix, em que Benedict Cumberbatch faz o papel de Dominic Cummings). Desde então que o Boris não o deixa ir para lado nenhum: Dominic tornou-se uma espécie de Rasputin do No.10. Apesar de a sua especialidade ser consultadoria política (e trafulhice), o Dominic tem estado presente nas reuniões de cientistas para a resposta à Covid-19, e era presença assídua na casa do primeiro-ministro até ele ter ficado infectado, altura em que o Dominic literalmente fugiu do No.10 correndo a sete pés. Ora, é aqui que começa, realmente, a história.

A comunicação social fez saber há uns dias que o Dominic, que tanto tinha falado e feito para manter as pessoas em casa, que fez regras (sem autoridade nenhuma para as fazer) e que disse às pessoas que era imperioso que não as quebrassem… quebrou as regras. Durante a quarentena, em que ninguém podia sequer sair de casa mais do que uma vez por dia e só para ir ao supermercado ou fazer exercício sem ir muito longe, o Sr. Cummings meteu-se no carro com a mulher e o filho e fez uma viagem de 450 km, cerca de cinco horas, de Londres a Durham. Diz o Dominic que isto foi pouco depois da tal corrida a fugir da residência do primeiro-ministro: a mulher tinha sintomas de Covid-19, ele também (mas foi trabalhar nesse dia) e, por isso, com medo de não poderem tomar conta do filho se estivessem os dois doentes, foram até Durham para casa dos pais do Dominic, caso acontecesse alguma coisa. Sair de casa com sintomas, meter-se no carro e embarcar numa viagem de cinco horas é uma clara transgressão das regras. Dominic diz que se mantiveram isolados porque fizeram a viagem de uma vez, sem parar em lado nenhum; presume-se que o carro estivesse bem abastecido para fazer os 450 km sem precisar de atestar.

Mas até aqui podíamos ter alguma compaixão com a situação, coitado, não tinha um amigo que fosse em Londres ou num raio de 450 km, teve de ir até Durham. Acontece. Foi para a quinta do pai, ficou numa casa separada que ele tem na sua propriedade, e lá ficou uns tempos. No dia 12 de Abril que, por completa coincidência, claro está, foi o quadragésimo quinto aniversário da esposa do Dominic Cummings, ambos decidiram que iam voltar a Londres, embarcar em mais cinco horas de viagem, agora que se sentiam melhor (mas ainda durante o regime de quarentena). Mas havia um problema: o novo coronavírus parecia ter afectado a visão do Dominic, que não sabia agora se podia conduzir. Será que era seguro? Será que mesmo vendo mal ele conseguia conduzir até Londres? Com a maior naturalidade do Mundo, a fim de testar a sua visão e averiguar se era seguro conduzir, Dominic coloca a mulher e o filho no carro e vai conduzir um bocado, só para testar. E onde será que vai fazer este teste? Num parque de estacionamento qualquer? Não, melhor mesmo é conduzir até à atracção turística mais próxima, o Barnard Castle, num dia de Sol que calha em ser o aniversário da mulher – mas só mesmo para testar se estava a ver bem. Ao chegar lá, saiu do carro (o miúdo precisava de um xixi e ele aproveitou para esticar as pernas) e lá se apercebeu que sim, que via bem, e seguiu para Londres. O Dominic veio à televisão contar esta história, e eu ouvi em directo a pensar que pronto, até o génio do Brexit teria de ter o seu fim, e aqui estava ele. Mas não. Dominic continuou a responder às perguntas dos jornalistas insistindo que não tinha quebrado as regras (haviam letras pequeninas nas regras, afinal), que não pedia desculpa, e que conduzir um bocado era um teste perfeitamente razoável para a visão. Quem nunca se meteu num carro para o conduzir sem saber se via a estrada à frente dos olhos?

O mais incrível, no entanto, não foi a história. Foi que no dia a seguir os jornalistas andaram nas ruas a perguntar às pessoas o que achavam da situação, e muitas diziam que não viam o problema, que achavam normal, credível. Mais!, nos dias que se seguiram, o próprio primeiro-ministro disse que também ele andava a ver mal desde que foi infectado com a doença (até fez questão de mostrar os óculos que trazia na lapela), e outros membros do governo vieram dizer que também já tinham usado uma escapadela de carro para testar se estavam a ver bem. Os jornalistas continuaram a fazer barulho e a fazer perguntas difíceis, mas foram repreendidos, e os conselheiros científicos do governo estão proibídos de dar pareceres sobre a situação Dominic. E – leiam com atenção agora – o actual governo continua com a maioria da intenção de voto. E o Dominic continua a ser conselheiro do governo. Vocês sabem lá o que é ser manso…!

Comparemos, por exemplo, com o caso das celebrações do 25 de Abril em Portugal, também elas vistas por muitos como um quebrar das regras, embora em circunstâncias completamente diferentes da tragicomédia Cummings. Por muito que as celebrações na Assembleia da República não tivessem sido canceladas (as opiniões não eram, de qualquer das formas, unânimes), o marulhar do descontentamento das pessoas exigiu, ainda assim, que se justificasse publicamente a decisão e, mais ainda, forçou muitos dos discursos nesse dia, incluindo o do Presidente da República, a oferecerem mais justificações às pessoas. O povo português não é manso, nem distraído, nem negligente na sua cidadania. O povo português está desorientado, desorganizado, sem saber canalizar a sua revolta para os movimentos e as iniciativas que fazem a diferença. O povo português está a deixar-se embalar na tribalização da política e trata a cor do partido como a cor de uma equipa de futebol – e esquece que é o povo que mais sabe sobre os interesses do povo, e que só na união do povo se encontra o vapor que propulsiona a mudança. Não nos deixemos cair na dormência que agora afecta o povo britânico, que encontra em si mesmo a capacidade de aceitar o ridículo por incapacidade de criticar a pessoa em quem votou. Saibamos manter a dignidade, e voltar a olhar uns para os outros com solidariedade, numa luta conjunta pelos nossos interesses.

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