Sobre George Floyd, vou calar-me

De vez em quando, lá nos chega uma notícia de mais uma pessoa morta às mãos da polícia. Desproporcionalmente, essas pessoas são negras. O problema parece ser isolado, e parece exclusivo dos Estados Unidos da América. Não é. George Floyd é um nome entre as centenas de nomes de pessoas que morrem às mãos da polícia nos EUA. Em 2019, forças policiais norte-americanas mataram 1099 pessoas, e é três vezes mais provável que uma pessoa negra seja morta nestas circunstâncias, do que uma pessoa branca.

Estou a aprender a passar da ilusão não racista à proactividade do anti-racismo. É um caminho estranho de percorrer, mas necessário, e o mínimo que posso (podemos) fazer. Aliar-me à luta pela igualdade racial sem impor a minha voz é importante para mim, porque acredito no valor das experiências vividas, que tantas vezes esquecemos de ouvir. Não posso nunca entender o que sente a comunidade negra confrontada com estas tragédias, e não vou ter nunca às minhas costas o peso de um passado escravo. A enormidade, a brutal realidade desta tragédia é sufocante e permeia o tecido da sociedade e da cultura ocidental, Europeia – e eu não a entendo. Não a reconheço válida, e não a entendo. Por isso, sobre George Floyd, vou calar-me.

Mas não vos deixo sem nada. Não querer impor a minha voz não pode significar silêncio, que é uma forma de complacência, cumplicidade. Quero amplificar as vozes que a sociedade abafa, dar-lhes o meu tempo, o meu espaço, propulsionar para a minha frente as perspectivas e os relatos que tantas vezes apagamos do discurso público. Quero partilhar convosco um discurso cujas palavras são das que mais me marcaram na vida. As palavras são de James Arthur Baldwin, um escritor norte-americano e activista pelo Movimento dos Direitos Civis nos EUA, e foram proferidas como parte de um debate com o conservador William F. Buckley em Cambridge, em 1965. O tema do debate era a pergunta: ‘O sonho americano foi conseguido às custas do Americano Negro?‘ A resposta de Baldwin fala-nos de identidade, de como a história nos molda e nos condiciona, de empatia, da realidade. Fala-nos da dor – não a dor física do chicote e do ferro quente na carne, mas a dor de ver no futuro o presente, e da impotência para o alterar. Fala-nos das coisas terríveis que acontecem à alma de um ser humano para que o permitam ver nos seus irmãos e irmãs algo menos que si mesmo.

O que diria ele, se aqui estivesse…?


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James Baldwin no Hyde Park, em Londres, fotografado por Allan Warren. (1969)

‘Boa noite,

Encontro-me, não pela primeira vez, na posição de um Jeremias. Por exemplo, eu não discordo do Sr. Burford quanto a que a desigualdade sofrida pela população Negra Americana dos Estados Unidos tenha impedido o sonho americano. De facto, impediu. Eu disputo outras coisas que ele tem a dizer. O outro, profundo, elemento de um certo constrangimento que eu sinto está relacionado com o ponto de vista de cada um. Tenho de dizê-lo desta forma – a noção, o sistema de realidade de cada um. Parece-me que o que é proposto à Casa [de debate], e eu colocá-lo-ia desta forma, é que o sonho americano seja à custa do Americano Negro, ou que o sonho americano é à custa do Americano Negro. A pergunta é horrivelmente carregada, e a resposta de cada um a essa pergunta – a reacção de cada um a essa pergunta – tem de depender efectivamente de onde te encontras no Mundo, da tua noção da realidade, do teu sistema de realidade. Isto é, depende das premissas que mantemos tão profundamente que mal nos apercebemos delas.

Um sharecopper [dono de quinta que arrendava terra em troco de parte da colheita] branco, da África do Sul ou do Mississípi, ou um xerife do Mississípi, ou um Francês expulso da Argélia, todos eles, no fundo, possuem um sistema de realidade que os compele a, por exemplo, no caso do Francês exilado da Argélia, apresentar razões francesas para ter controlado a Argélia. O xerife do Mississípi ou do Alabama, que realmente acredita, quando olha para um menino negro ou uma menina negra, que essa mulher, esse homem, essa criança, têm de ser loucos para atacar o sistema a quem devem a totalidade da sua identidade. Claro que, para tal pessoa, a questão que estamos a tentar discutir aqui esta noite não existe. E, por outro lado, eu tenho de falar enquanto uma das pessoas que foram mais atacadas pelo que agora teremos de chamar aqui o sistema de realidade ocidental ou Europeu. O que as pessoas brancas no mundo, o que chamamos agora de supremacia branca – e detesto dizê-lo aqui – vem da Europa. Foi assim que chegou à América. Portanto, por detrás de qualquer que seja a reacção de cada um a esta pergunta, tem de estar a questão de se as civilizações podem ou não ser consideradas iguais, por assim dizer, ou se uma civilização tem o direito de tomar controlo e subjugar e, de facto, destruir outra.

O que acontece quando isso acontece – deixando de lado todos os factos físicos que podem ser citados, deixando de lado violação e assassínio, deixando de lado o catálogo sangrento de opressão, com o qual já estamos de certa forma demasiado familiarizados – o que isto faz aos subjugados, o mais privado, mais sério efeito que isto tem sob os subjugados, é destruir a sua noção da realidade. Destrói, por exemplo, a autoridade do seu pai sobre si. O seu pai deixa de poder dizer-lhe o que quer que seja, porque o passado desapareceu, e o seu pai não tem poder no Mundo. Isto significa, no caso do Americano Negro, nascido na cintilante república, que desde o momento em que nasces, visto que não sabes mais nada, todo o pau e toda a pedra e toda a cara é branca. E, visto que ainda não viste um espelho, presumes que tu o és, também. É um enorme choque, pela idade dos 5, ou 6, ou 7, descobrir que a bandeira à qual juraste lealdade, como toda a gente, não te jurou lealdade a ti. É um enorme choque descobrir que o Gary Cooper matar índios, quando tu torcias pelo Gary Cooper, que os índios és tu. É um enorme choque descobrir que o país que é o sítio onde nasceste e ao qual deves a tua vida e a tua identidade não desenvolveu, no seu inteiro sistema de realidade, um lugar para ti.

É um enorme choque, pela idade dos 5, ou 6, ou 7, descobrir que a bandeira à qual juraste lealdade, como toda a gente, não te jurou lealdade a ti.

O desafecto, a desmoralização, e a distância entre uma pessoa e outra com base na cor da sua pele, começa aqui e acelera – acelera ao longo de toda uma vida – até ao presente, quando te apercebes que tens trinta anos e tens uma terrível dificuldade em confiar nos teus compatriotas. Quando chegas aos trinta, passaste por uma espécie de moinho. E o mais sério efeito do moinho pelo qual passaste é, mais uma vez, não o catálogo de desastre, os polícias, os taxistas, os empregados de mesa, a senhoria, o senhorio, os bancos, os seguros, os milhões de detalhes, vinte e quatro horas de cada dia, que te demonstram que és um ser humano sem valor. Não é isso. É o momento em que começas a ver o mesmo acontecer à tua filha, ao teu filho, à tua sobrinha, ao teu sobrinho. Tens agora trinta anos e nada do que fizeste ajudou a que escapasses da armadilha. Mas o que é pior que isso, é que nada do que tenhas feito e, tanto quanto te apercebes, nada do que alguma vez faças, vai salvar o teu filho ou a tua filha de encontrarem o mesmo desastre, e possivelmente de terem o mesmo fim.

Agora estamos de falar de custo. Presumo que haja várias formas de alguém se dirigir a uma tentativa de definir o que esta palavra significa aqui. Deixem-me colocar as coisas desta forma: que de um ponto de vista muito literal, especialmente os estados do Sul [dos EUA] não poderiam nunca ser o que se tornaram se não tivessem tido, e se não tivessem ainda, e por tanto tempo, por muitas gerações, mão-de-obra barata. Estou a declarar muito seriamente, e isto não é um exagero: EU apanhei o algodão, EU carreguei-o até ao mercado, e EU construí os caminhos-de-ferro sob o chicote de outrém, por nada. Para nada. A oligarquia do Sul, que até hoje tem tanto poder em Washington e, portanto, algum poder no Mundo, foi criada pelo meu trabalho e o meu suor, e pela violação das minhas mulheres e o assassínio das minhas crianças. Isto, na terra dos livres, a casa dos bravos. E ninguém pode desafiar esta declaração. É matéria de facto histórico.

EU apanhei o algodão, EU carreguei-o até ao mercado, e EU construí os caminhos-de-ferro sob o chicote de outrém, por nada. Para nada.

Desta forma, este sonho – e chegaremos ao sonho num momento – é à custa do Americano Negro. Viram isto no Sul Profundo aquando do grande alívio [abolicionismo]. Mas não só no Sul Profundo. No Sul Profundo, lidas com um xerife ou com um senhorio, ou uma senhoria ou uma rapariga no balcão da Western Union, quando ela não sabe bem com quem está a lidar – e com isto quero dizer que não és parte da cidade, e se tu és um N*gger do Norte, isso dá para ver de um milhão de maneiras. Então, ela simplesmente sabe que és uma variável desconhecida, e não quer ter nada a ver com isso, não te fala, tu tens de esperar um bom bocado para receber o teu telegrama. Ok, sabemos de tudo isto. Já todos passámos por isto e, depois de te tornares homem, é fácil lidar com isto. Mas o que está a acontecer na mente da pobre mulher, do pobre homem, é isto: eles foram criados para acreditar, e a esta altura acreditam desesperadamente, que não importa o quão terríveis as suas vidas possam ser, e as suas vidas são bastante terríveis, não importa o quão fundo caiam, e seja qual for o desastre que os assole, eles encontram consolo numa enorme certeza, que é como uma revelação celestial: pelo menos, eles não são negros.

Agora, eu sugiro que de todas as coisas terríveis que podem acontecer a um ser humano, esta é uma das piores. Sugiro que o que aconteceu aos brancos do Sul é, de certa forma e apesar de tudo, muito pior do que aconteceu aos seus negros, porque o xerife Clark em Selma, Alabama, não pode ser considerado – quer dizer, ninguém pode ser descartado como um total monstro. Tenho a certeza que ele ama a mulher, os filhos. Tenho a certeza que gosta de se embebedar. Afinal, temos de assumir que ele é, e visivelmente ele é, um homem como eu. Mas ele não sabe o que o leva a usar o cassetete, a ameaçar com a arma e a usar o ferro do gado. Algo horrível tem de ter acontecido a um ser humano para ele ser capaz de chegar um ferro quente ao peito de uma mulher, por exemplo. O que acontece à mulher é medonho. O que acontece ao homem que o inflige é, de certa forma, muito, muito pior. E isto está a ser feito, afinal, não há 100 anos atrás, mas em 1965, num país que é abençoado com o que chamamos de prosperidade (uma palavra que não analisaremos de perto), com um certo tipo de coerência social, que se diz uma nação civilizada, e que abraça a noção de liberdade do Mundo. E é perfeitamente verdade do ponto de vista agora simplesmente do Americano Negro. Qualquer Americano Negro que esteja a assistir a isto, independentemente de onde ele seja, ou do ponto de vista de Harlem [Nova Iorque], que é outro sítio terrível, tem de dizer a si mesmo, independentemente do que diz o governo – o governo diz que não podemos fazer nada quanto ao assunto – mas se fossem pessoas brancas a ser assassinadas nas quintas de trabalho do Mississípi, a ser levadas para a prisão, se fossem crianças brancas a correr as ruas de cima a baixo, o governo encontraria formas de fazer algo quanto ao assunto.

Temos agora uma lei de direitos civis onde uma emenda, a décima quinta, com quase cem anos – e eu detesto soar mais uma vez como um profeta do Velho Testamento – mas se a emenda não foi honrada na altura, eu não tenho razão alguma para acreditar que a emenda dos direitos civis seja honrada agora. E, afinal, nós estávamos lá, muito antes, sabem, de lá chegar muita outra gente. E se uma pessoa tem de provar o seu direito à terra, quatrocentos anos não serão suficientes? Pelo menos três guerras? O solo Americano está cheio de cadáveres dos meus antepassados. Porque é que a minha liberdade ou a minha cidadania, ou o meu direito de viver aqui, como é que podem possivelmente estar a ser questionados agora? E sugiro mais ainda, e da mesma forma, que a vida moral dos xerifes do Alabama e das pobres senhoras do Alabama – senhoras brancas – as suas vidas morais foram destruídas pela praga chamada cor, e que a noção da realidade Americana foi corrompida pela mesma praga.

Correndo o risco de soar excessivo, o que eu sempre senti, quando finalmente deixei o país e dei comigo no estrangeiro, noutros sítios, e observei Americanos no estrangeiro – e estes eram os meus compatriotas, e eu preocupo-me com eles, e mesmo que não quisesse saber, há algo entre nós. Temos as mesmas abreviações; eu sei que, se olhar para um rapaz ou uma rapariga do Tennessee, eu sei de onde no Tennessee eles vêm e o que isso significa. Nenhum Inglês sabe isso. Nenhum Francês, ninguém no Mundo sabe isso, excepto outro negro que vem do mesmo lugar. Uma pessoa observa estes Americanos solitários negar a única conexão que têm. Nós falamos de integração na América como se isto fosse um novo dilema. Ponham-me ao lado de qualquer Africano e verão o que eu quero dizer. A minha avó não era uma violadora. O que nós não estamos a confrontar é o resultado do que fizémos. O que se pede ao povo Americano pelo bem de todos nós é simplesmente que aceite a sua história. Eu estava lá não só como escravo, mas também como concubino. Uma pessoa sabe o poder, apesar de tudo, que pode ser usado contra outra pessoa se se tiver completo controlo sob essa pessoa.

O que se pede ao povo Americano pelo bem de todos nós é simplesmente que aceite a sua história.

Pareceu-me, enquanto observava Americanos na Europa, que o que eles não sabiam sobre Europeus era o que eles não sabiam sobre mim. Eles tentavam, por exemplo, ser grosseiros para a moça Francesa, ou malcriados para o empregado de mesa Francês. Eles não sabiam que os tinham magoado. Eles não tinham qualquer noção que essa mulher em particular, esse homem em particular, apesar de falarem uma língua diferente e terem maneirismos diferentes, eram seres humanos. E espezinhavam-nos, o mesmo tipo de pura ignorância, condescendência, charmosa e alegre, com que sempre me davam palmadinhas na cabeça e me chamavam Shine e se chateavam quando eu me chateava. O que é relevante sobre isto é que enquanto há quarenta anos atrás quando eu nasci, a questão de ter de lidar com o que é silenciado pelos subjugados, o que nunca é dito ao mestre, a possibilidade de ter de lidar com esta realidade era muito remota. Não passava pela cabeça de ninguém. Quando eu era pequeno, ensinaram-me nos livros da história Americana, que África não tinha história, e eu também não. Que eu era um selvagem sobre o qual quanto menos se dissesse melhor, que tinha sido salvo pela Europa e trazido para a América. E, claro, eu acreditei nisso. Não tive muita escolha. Aqueles eram os únicos livros que havia. Toda a gente parecia concordar.

Ao sair de Harlem [Nova Iorque], do centro da cidade, o Mundo concorda que o que se vê é muito maior, mais limpo, mais branco, mais rico, mais seguro, do que onde estás [em Harlem]. As pessoas obviamente podem pagar os seus seguros de vida. As crianças parecem felizes, seguras. Tu não. E vais para casa, e parece-te, claro, que é um acto de Deus, decerto! Que tu pertences onde as pessoas brancas te colocaram. E só desde a Segunda Guerra Mundial tem havido uma contra-imagem no Mundo. E essa imagem não veio através de nenhuma legislação nem foi parte de nenhum governo Americano, mas veio do facto de que África se tornou de repente o palco do Mundo, e os Africanos tiveram de lidar com algo com que nunca tinham lidado antes. Isto deu ao Negro Americano pela primeira vez uma noção de si mesmo para além de selvagem ou palhaço. Isto criou e vai criar muitos dilemas. Uma das coisas importantes que o Mundo branco não sabe, mas que eu penso que saiba, é que as pessoas negras são apenas como todas as outras pessoas. O mito do negro e o mito da cor têm sido usados para fingir que se está a lidar com algo exótico, bizarro, e praticamente, de acordo com as leis humanas, desconhecido. Mas isto não é verdade. Nós também somos mercenários, ditadores, assassinos, mentirosos. Nós também somos humanos.

E essa imagem não veio através de nenhuma legislação nem foi parte de nenhum governo Americano, mas veio do facto de que África se tornou de repente o palco do Mundo, e os Africanos tiveram de lidar com algo com que nunca tinham lidado antes. Isto deu ao Negro Americano pela primeira vez uma noção de si mesmo para além de selvagem ou palhaço.

O que é crucial aqui é que a menos que consigamos aceitar, estabelecer algum tipo de diálogo entre as pessoas que fingimos ter pago pelo sonho americano, e as outras que não o atingiram, estaremos em terríveis problemas. Quero dizer, por fim, aquilo que mais me preocupa. Nós que estamos nesta sala somos todos, pelo menos eu quero acreditar que somos, relativamente civilizados, e podemos falar uns com os outros pelo menos a certos níveis, de forma que poderíamos sair daqui assumindo que as nossas mentes iluminadas ou, pelo menos, a nossa gentileza, têm algum efeito no Mundo. Poderão não ter.

Lembro-me, por exemplo, quando o ex-Procurador Geral, Mr. Robert Kennedy, disse que era concebível que daqui a quarenta anos a América pudesse vir a ter um presidente negro. Esta declaração deve ter soado muito emancipada e progressiva, suponho, para pessoas brancas. Elas não estavam em Harlem quando esta declaração foi ouvida pela primeira vez. E elas não estão aqui, e possivelmente nunca irão ouvir as gargalhadas, e a amargura, e o desprezo com que a declaração foi recebida. Do ponto de vista do homem na barbearia de Harlem, Bobby Kennedy só cá tinha chegado ontem, e já estava a caminho da presidência. Nós estamos cá há quatrocentos anos, e agora ele diz-nos que daqui a quarenta anos, se formos bonzinhos, ‘talvez te deixemos ser presidente’.

O que é perigoso é o voltar de costas – o voltar de costas – a qualquer coisa que um Americano branco diga. A razão da hesitação política, apesar do deslize causado por Johnson, é que temos sido traídos pelos políticos Americanos por tanto tempo. E eu sou um homem crescido e posso ser chamado à razão. Certamente espero que possa ser. Mas eu não sei, e o Martin Luther King também não sabe, nenhum de nós sabe, lidar com as pessoas que o Mundo branco ignorou tanto tempo que elas não acreditarão em nada do que o Mundo branco tenha para lhes dizer, e que não acreditam inteiramente no que eu ou o Martin dizemos. E não as podemos julgar. Observem o que tem acontecido com elas em menos de vinte anos.

A cidade de Nova Iorque, por exemplo – e este é o meu último ponto – há muito tempo que tem residentes negros. A cidade de Nova Iorque foi capaz, tem efectivamente sido capaz, nos últimos quinze anos, de se reconstruir, mandar abaixo edifícios e erguer fantásticos edifícios novos, no centro da cidade e por dinheiro, mas não tem feito nada, sem ser construir bairros sociais no ghetto, pelos negros. E claro, os negros detestam-nos. De momento a propriedade deteriora-se realmente porque as crianças não suportam a situação. Querem sair o ghetto. Se as pretensões Americanas fossem baseadas em mais sólidas e mais honestas análises da vida e de si mesmas, não significaria para os negros, quando alguém diz ‘renovação urbana’, que os negros simplesmente vão ser atirados para as ruas. Isto é simplesmente o que significa agora. Isto não é um acto de Deus. Estamos a lidar com uma sociedade feita para e controlada por homens. Se o Americano Negro não tivesse estado presente na América, estou convencido de que a história do movimento laboral Americano teria sido muito mais edificante do que foi.

É uma coisa terrível um povo inteiro render-se à noção de que um nono da sua população é inferior. E até esse momento, até ao momento em que nós, Americanos, nós o povo Americano, sejamos capazes de aceitar o facto, que eu tenho que aceitar, por exemplo, de que os meus ancestrais eram ambos brancos e negros; que neste continente estamos a tentar forjar uma nova identidade para a qual precisamos uns dos outros e que eu não sou uma ala da América. Eu não sou um objecto de caridade missionária. Eu sou uma das pessoas que construiu o país – até este momento há pouquíssima esperança para o sonho americano, porque as pessoas a quem é negada a participação no mesmo, pela sua mera presença, destrui-lo-ão. E se isso acontecer será um momento grave para o ocidente.

Obrigado.’’

– James Baldwin, 1965

(Tradução livre de Natércia Rodrigues Lopes, 2020)


Rest in Peace, George Floyd.

(And all the many others who were and are victims of racial hatred.)

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George Floyd, fotografia retirada do New York Times.

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