Quarentena: Um Debate em Três Atos (Ato III)

Demorei o meu tempo a escrever este artigo porque quis digerir toda informação tempo suficiente para ter a certeza do que ia dizer. E a certeza que tenho, hoje ainda mais que há dois meses, é que não há (nem pode haver) certezas de grande coisa. Em particular, penso muito no facto de a ciência estar a ser vendida nos jornais e chafurdada na boca de alguns políticos e tertulianos como sendo verdade absoluta. Ciência essa que, dizem, lhes falhou porque os cientistas são burros, maus, cobardes ou corruptos. Esclarecer sobre aquilo que a ciência é, e sabe, e sobre aquilo que a ciência não é, e não pode saber, é algo que tenciono fazer um dia, mas hoje quero focar-me na minha perspectiva sobre a polémica da quarentena, como prometi que faria neste Ato III do meu ‘Debate em Três Atos’.

O assunto é muito vasto, e extremamente complexo. A quantidade de informação é tremenda, e muda a toda a hora, o que é expectável (assim é, em ciência). Mas não deixa de tornar a tarefa de entender e resumir o assunto algo colossal. Não sendo epidemiologista, nem médica, nem biologista, nem nada que se pareça, sei colocar-me no meu lugar de leiga quanto à especificidade do assunto e ouvir quem saiba mais que eu – daí que tenha entrevistado pessoas dos dois lados deste debate, no Ato I e Ato II. No entanto, tendo vasta experiência e treino em navegar informação científica, e em avaliá-la com sentido crítico, sinto-me na capacidade de tirar as minhas conclusões. Enquanto pensava neste assunto, sempre me vinham à mente perguntas cruciais que, para mim, formam o busílis da questão. Decidi, portanto, organizar este artigo de acordo com essas perguntas, seguindo um formato de entrevista, que vou fazendo a mim mesma conforme penso no assunto. Aqui vão elas – com as minhas respostas.

Afinal: há, ou não há, pandemia?

Altamente subjectivo. Não há uma definição concreta, um número ou uma condição específica que tenha de ser observada para que uma doença seja declarada pandémica. De 2003 a 2009, o website da Organização Mundial de saúde (OMS), dizia que ‘uma pandemia de influenza ocorre quando um novo vírus influenza aparece, contra o qual o ser humano não tem imunidade, resultando em várias epidemias globalmente, com elevado número de mortes ou doentes’. Em 2009, aquando do aparecimento do vírus H1N1 (gripe suína), a definição passou a não fazer menção ao número elevado de mortes, para referir apenas as várias epidemias globais. Esta definição sem referência a mortes permitiu que o vírus H1N1 fosse declarado uma pandemia, o que, por sua vez, desencadeou vários processos extremamente dispendiosos de preparação contra a pandemia pelo mundo. Quando o H1N1 se revelou, mais tarde, relativamente inócuo, vários países se insurgiram contra a OMS, que os teria induzido a gastar dinheiro desnecessariamente, diziam.

Desde então que a OMS não oferece uma definição clara de pandemia, e a decisão de declarar uma doença pandémica é, portanto, essencialmente arbitrária. A Covid-19 foi declarada uma pandemia a 11 de Março de 2020 porque a OMS estava ‘preocupada tanto com os níveis alarmantes de propagação e gravidade do vírus, como pelos níveis alarmantes de inacção’ – referindo assim os critérios antigos de transmissão sustentada da nova doença e da sua gravidade (associada, pressupõe-se, ao número de mortos e doentes) mas adicionando, ainda que não formalmente, um outro critério, o da inacção.

Assim sendo, concluo que tentar definir ou discutir se há ou não uma pandemia é uma perda de tempo sem grande sentido. O que há, com toda a certeza, é um novo vírus, o SARS-Cov-2, que se propaga de forma sustentada na população. Em geral, a Covid-19, doença provocada pelo vírus SARS-Cov-2, manifesta-se clinicamente como uma pneumonia (infecção nos pulmões), e os doentes sintomáticos geralmente apresentam febre e tosse. Outros sintomas ou outras complicações clínicas são possíveis, mas raros, e a sua associação com a Covid-19 ainda não é clara, dada a novidade da doença. Quando um artigo de jornal vos fala de um número de pacientes Covid-19 que também tinham coágulos no sangue, isso não é suficiente para dizer que foi a Covid-19 que provocou os coágulos (ou os problemas nos rins, no fígado, e outros órgãos, como a comunicação social repete todos os dias). Mesmo que haja um estudo que apresente alguns dados nesse sentido, um estudo isolado geralmente não é suficiente para provar causalidade. A doença de Kawasaki, por exemplo, que a comunicação social apresenta quase como sintoma comum da Covid-19 em crianças, não pode ser necessariamente atribuída ou associada à Covid-19. Não deixem que a precipitada e turva reportagem de estudos científicos vos faça a vocês precipitarem-se. A ciência leva tempo.

A taxa de letalidade do coronavírus é maior que a da gripe comum, ou não? Há (ou havia) caso para alarme, ou não?

A taxa de letalidade de uma doença é a proporção entre o número de mortes causadas por essa doença e o número total de doentes. Vamos aqui definir doentes como todos os infectados. Sabemos (hoje, mas não sabíamos em Janeiro) que muitas das pessoas infectadas por SARS-Cov-2 não chegam a desenvolver sintomas, mas incluamos para o propósito deste artigo infectados sintomáticos e assintomáticos no grupo dos ‘doentes’. É provável que o primeiríssimo caso de Covid-19 nunca seja identificado: se houve sintomas, a doença ter-se-ia apresentado como uma pneumonia, e provavelmente foi para isso que o doente foi tratado. Como disse, a ciência leva tempo, e de o vírus ter aparecido até os médicos e cientistas se aperceberem que havia uma doença nova, passaram, com certeza, semanas. Mas imaginemos que o primeiro caso de Covid-19 tinha sido diagnosticado: teríamos agora um doente Covid-19. Imaginemos também que os sintomas levam à hospitalização do doente e, finalmente, à sua morte. Teríamos, então, uma taxa de letalidade de 100%, porque todos os doentes (que neste caso era só um) morreram. Agora imaginemos que aparecem no hospital 100 doentes com Covid-19, e morrem 20. Temos, agora, uma taxa de letalidade do vírus de 20%. No entanto, com o desenvolver da capacidade de teste, começamos a apercebermo-nos que há muito mais doentes que nunca chegaram a ser hospitalizados ou que nem sequer desenvolveram sintomas. Vamos supor que, contando com os casos que agora conseguimos testar, os doentes são afinal 20.000 (com e sem sintomas). Assumindo que se mantiveram as 20 mortes, a taxa de letalidade passa a ser 0.1%. Esta é a razão pela qual os valores da taxa de letalidade da Covid-19 mudam constantemente, e especificamente a razão pela qual têm descido significativamente desde o início da propagação do vírus – porque a capacidade de teste tem aumentado (a população de doentes identificados aumenta) e, portanto, estamos a dividir um mesmo número de mortes por um número muito maior de infectados.

Inicialmente, a taxa de letalidade global da Covid-19 era estimada a 15%, o que teria sido catastrófico se se tivesse confirmado. Mas desde então, como era de prever e conforme a capacidade de teste da população geral aumentou, os números têm sido revistos para uma letalidade provável de cerca de 1% (ao dia 18 de Maio) ou ainda menos, com estudos a dar números tão baixos como 0.66% ou até 0.17%, embora este valor possa estar perto do limite mínimo da letalidade estimada da Covid-19. O valor exacto desta taxa é diferente para grupos etários diferentes, e varia também muito de região para região. Não descurando a cautela necessária ao interpretar estes números, parece poder dizer-se que a taxa de letalidade do SARS-Cov-2 pode não vir a ser muito mais alta do que a da gripe comum, estimada (com dados de muito mais anos e, por isso, com muito mais certeza) em 0.1%. De resto, ainda muita análise terá de ser feita para entender se houve ou não excesso de mortalidade geral, e se esse excesso foi devido à Covid-19 ou a outras causas.

Para finalizar o tópico da letalidade, queria fazer um interlúdio sobre incerteza nestes números. Dizia o Gabriel Branco no Ato II, e com razão, que não há um método padronizado de contabilização destas mortes, o que torna as comparações de país para país mais difíceis. Ou seja, o que é que conta como uma morte Covid-19? Como definimos uma morte causada pela Covid-19? Podemos entender que conta como morte Covid-19 toda a morte de um infectado: se uma pessoa testa positivo para Covid-19 e morre, a morte é contabilizada como Covid-19. Mas e se uma pessoa estava no hospital com uma falha renal, foi infectada com Covid-19, piorou, e depois morreu? A morte é Covid-19 ou aparece na ficha de óbito a falha renal? Poderia dizer-se que apesar da falha renal, sem Covid-19 a pessoa teria sobrevivido. Ou não. Não podemos saber isso, e a decisão de contar essa morte para os números Covid-19 torna-se, de certa forma, arbitrária (mesmo sendo, espera-se, consistente dentro do mesmo país). Entre países, no entanto, os critérios para contabilizar uma morte Covid-19 não são os mesmos e, portanto, os números totais de mortes não podem necessariamente ser comparados de igual para igual. Creio que fosse a isto que se referia o deputado italiano Vittorio Sgarbi quando disse que dezenas de milhar de mortes Covid-19 em Itália eram falsas: presumo que tivessem sido mortes de pessoas que já apresentavam alguma patologia anterior e que por isso, no entender de Vittorio Sgarbi, não deveriam contar como morte Covid-19. Declarar malícia na definição destes critérios e questionar a democracia de um país por discordar com eles parece-me, no entanto, francamente exagerado e pouco honesto.

Mas nem só de mortalidade se faz um vírus. Tanto a capacidade de transmissão do vírus como a proporção de hospitalizações resultantes de infecção também fazem a diferença. A capacidade de transmissão, que podemos entender como a rapidez com que o vírus se espalha, é importante porque ter 1000 infectados a chegar ao hospital em dois meses não é a mesma coisa quer ter 1000 infectados a chegar ao hospital em duas horas. A proporção de hospitalizações, por outro lado, é importante porque não é a mesma coisa que 20 em cada 100 infectados precisem de cuidados hospitalares, ou 80 em cada 100. Ambos estes números interessam porque interferem com a capacidade dos sistemas de saúde de funcionar – que era, lembremos, a grande preocupação e motivo de querer ‘achatar a curva’. Ao momento, pode dizer-se que a gripe comum se transmite mais rápido que a Covid-19. No que toca à proporção de hospitalizações, há ainda pouca informação, o que indica incerteza, mas estudos sugerem que até cerca de 8% das pessoas infectadas com SARS-Cov-2 desenvolvem sintomas que requerem hospitalização; este número compara com 0.5% para a gripe comum. Pode por isso dizer-se que a Covid-19 gera uma maior proporção de casos clínicos mais graves do que a gripe comum, o que está em linha com o que afirma a OMS.

Resumindo, ao que sabíamos há dois meses, a Covid-19 poderia ter vindo a matar muito mais, mas era provável – e assim se observa agora – que matasse muito menos do que inicialmente se estimava. De facto, é possível que a taxa de letalidade seja tão baixa como a da gripe comum, mas só com mais tempo saberemos ao certo. Também em termos de facilidade de transmissão não tínhamos nem temos razões para pensar que fosse mais rápida que a da gripe comum. No entanto, há alguns indícios de que a proporção de doentes que precisam de hospitalização poderá ser significativamente maior para a Covid-19 quando comparada com a gripe comum.

A quarentena obrigatória era estritamente necessária?

Não podemos nunca provar, em termos científicos, que foi a quarentena que provocou ou evitou o que quer que seja. Como dizia o Gabriel Branco na entrevista que lhe fiz, o ónus da prova está na tese de que a quarentena causa o controlo do vírus, porque em ciência só podemos provar que uma acção tenha uma dada reacção; não faz sentido querer provar que a falta de uma acção tenha tido uma reacção. No entanto, para provar estas coisas, é preciso experiências controlo para usar em comparação, para termos a certeza de que a reacção que observamos é, de facto, resultado da nossa acção. No contexto da quarentena, isto é o equivalente a dizer que precisaríamos de analisar precisamente o mesmo país, com a mesma população e sob as mesmas condições, em três circunstâncias diferentes: com vírus e com quarentena, com vírus e sem quarentena, e sem vírus. Só esta comparação directa poderia provar alguma coisa, mas, como é óbvio, é impossível de ser feita – temos apenas uma realidade. Podemos, claro, e isso tem sido feito até à exaustão, comparar países com medidas de contenção do vírus diferentes e tentar fazer sentido dos números que são emitidos por cada um, mas cada uma destas comparações tem de ser feita no contexto das diferenças entre os países: população, densidade populacional, condições de vida e de saúde geral da população, critério para contabilização de mortes Covid-19, número de testes, e outra imensidão de variáveis que se sobrepõem ao facto de que a propagação de um vírus varia imenso de uma população para outra pela simples razão de serem duas populações diferentes.

Assim, fica claro que a declaração da validade ou não da quarentena enquanto método de contenção de um vírus é uma matéria de opinião (ainda que devidamente informada), que depende dos dados e dos estudos que mais nos convencem. Na minha opinião, ficar em casa, evitar contacto com pessoas fora do agregado familiar e evitar eventos sociais, em particular os que envolvem grandes multidões, foram e vão continuar a ser comportamentos benéficos para a contenção do vírus. A utilidade do distanciamento social na supressão de vírus respiratórios é um dado adquirido não só para este novo coronavírus, mas para outros que vivem connosco há muito mais tempo (e até os impactos económicos destas medidas já foram alvo de alguns estudos, como este de 2012). Mas a quarentena obrigatória é uma medida de último recurso, que foi indevidamente propulsionada para o topo da lista de prioridades por ser a de mais impacto, a que dava mais ilusão de o governo estar a fazer alguma coisa. Muitas outras coisas tinham de ter acontecido antes da quarentena.

O aparecimento deste novo vírus, e a sua óbvia propagação em humanos pelo mundo inteiro, é e foi desde o início motivo de preocupação e alerta – e bem. Não se admitiria que, a ver uma doença sobre a qual nada se sabia espalhar-se pelo mundo, governos e instituições de autoridade sanitária nacionais e internacionais encolhessem os ombros. Era preciso que se acompanhasse a situação e que todos os países do mundo estivessem prontos para agir, começando por tomar precauções. As primeiras precauções foram, como deveriam ter sido, reforçar os cuidados de higiene que de qualquer das formas é recomendável ter também para proteger contra a gripe comum (que, lembremos, mata também muita gente). Estes cuidados incluem o espirrar para o cotovelo, lavar as mãos, deitar lenços no lixo, por exemplo. Em países asiáticos é também comum que as pessoas com sintomas de gripe cubram o nariz e a boca para evitar que partículas contaminadas sejam expelidas na direcção de outras pessoas, protegendo-as de infecção e evitando, assim, a propagação da doença – aqui está algo que talvez já devêssemos ter aprendido. Outra coisa que temos de erradicar, no contexto do novo vírus e em geral, e que está associada à nossa cultura da adoração do trabalho, é a insistência em ir trabalhar com sintomas, com tosse, com febre, a espirrar, o que só contribui para a propagação desta e de outras doenças. Reforçar nas pessoas a ideia de ficarem em casa quando estão doentes era trabalho para já ter sido feito há mais tempo, mas que era ainda mais importante fazer agora. A recomendação deveria também ter sido (e foi, creio) que ficasse em casa quem co-habitasse com alguém que apresentasse sintomas de Covid-19, por precaução.

Depois disto, conforme o vírus se alastrava pelo mundo a uma velocidade considerável e sem sabermos ao certo a taxa de letalidade que podíamos esperar, entendo que tenha sido prudente antecipar um pior cenário e querer evitá-lo. Aconselhar-se o teletrabalho parece-me óbvio, e alertar para a necessidade de restringirmos o contacto social com pessoas fora do nosso agregado familiar parece-me, também, sensato. Sabendo, desde início, que as pessoas de mais risco são as mais velhas e com condições de saúde anteriores, pedir-se cuidados redobrados ao visitar estas pessoas, e fazê-lo só quando necessário, parece-me também sensato. Era, aliás, por aqui que tínhamos de ter começado, antes ainda de fechar as escolas: proteger os grupos de risco. Se algumas pessoas dos grupos de risco puderam resguardar-se ficando em casa, as que estão institucionalizadas foram esquecidas até ao momento em que a situação se revelou já perigosa, embora essa situação fosse totalmente previsível. Só depois de haver um plano em movimento para proteger os grupos de risco se deveria ter avançado com outras medidas, incluindo a diminuição de lotação de cafés e restaurantes, o fecho de bares e discotecas (por serem locais fechados onde se congregam multidões) e, só depois disto, o fecho das escolas, onde se concentram os grupos etários de menor risco. Bem sei que nem só crianças vão à escola, e em reconhecimento disso e do facto de não sabermos no início se as crianças seriam uma via de transmissão acelerada, compreendo a decisão de fechar as escolas. Mas ainda não sei se foi a mais acertada. Temo bem que o fecho das escolas tenha sido uma decisão mal pensada, tomada para apaziguar as pessoas sem pensar no que vinha depois. Porque a situação se desenvolveu muito rápido, não nos demos tempo (e por negligência passada não estávamos preparados) para pensar em soluções para proteger crianças, professores e funcionários, sem encerrar escolas. Mandar as crianças para casa era a garantia da sua segurança, uma resposta visceral e compreensível de levar as crias de volta à toca. Mas e depois? Depois, deixámos os professores à sua sorte, a fazer das tripas coração para da noite para o dia passarem a ensinar à distância. Depois, os pais que têm o privilégio de poder deixar os filhos com avós deixaram de poder fazê-lo, e passaram a sentir o mesmo que quem não tem esse privilégio: sem escola não podem trabalhar. Depois, obrigámos as pessoas a ficar em casa. Depois de ter fechado as escolas não havia mais nada que o governo estivesse disposto a fazer para garantir os direitos dos trabalhadores que agora, por sua ordem, não podem servir os patrões. O resto foi uma reacção em cadeia a que o governo só soube reagir e, mesmo nisso, várias vezes sem grande competência.

E sobre o Estado de Emergência?

O distanciamento entre as pessoas, o evitar visitas sociais, o suprimir dos abraços, beijinhos e apertos de mão fora do agregado familiar, era necessário e deveria sempre ter feito parte do pacote de recomendações. Eram coisas que, aliás, as pessoas já estavam a fazer antes do Estado de Emergência ter sido declarado. Então porque é que não se confiou que as pessoas o continuassem a fazer de forma consciente? Tiraram-se direitos às pessoas porque esse foi um processo relativamente simples comparado com a alternativa. A alternativa era termos tido um governo de exemplar liderança que tivesse sabido comunicar às pessoas claramente os perigos, as incertezas e as medidas necessárias e razoáveis, sem perder mão da confiança da opinião pública (mas esta confiança é conquistada, não oferecida). Era termos tido um ponto de referência em quem pudéssemos confiar e termos todos também confiado uns nos outros para nos reorganizarmos como sociedade e manter o país a andar de forma segura. Mas nós não confiamos uns nos outros, e a comunicação social avassalou a opinião pública antes de o governo ele mesmo ter sido capaz de se organizar.

O declarar do Estado de Emergência é um atestado de incompetência que o governo passa a si mesmo. Sem a confiança das pessoas, sem poder de liderança nem capacidade de gestão da emergência, dá-se ao luxo de afrontar a democracia para passar uma ilusão de competência política, uma ilusão de capacidade de decisão executiva. Um governo seguro da sua liderança teria sabido dizer às pessoas que se resguardassem (e como), e teria conseguido que elas seguissem de boa vontade as suas recomendações. Mas quando oficiais governamentais se atrevem a dizer, com a certeza que não têm, que uma doença potencialmente pandémica não vai chegar ao país, e depois ela chega, deita por terra qualquer capacidade de liderança que pudesse ter tido. Em vez disso, sabendo não ter a confiança das pessoas e com medo das consequências que isso acarreta, o governo decidiu antes prendê-las para seu próprio bem. Este vírus vem deixar a nu o gigantesco abismo que se abriu entre a política e o público. Sem confiança mútua, desligados, de costas voltadas, deixam ambos um país moribundo sem forças para enfrentar os seus maiores desafios. Para agravar a situação, e para além de amplificar os medos justificáveis para níveis injustificáveis, a comunicação social vira-nos uns contra os outros com esta obsessão mesquinha de controlar e julgar as decisões do vizinho. Deixámos de confiar, também, uns nos outros. Perdemos o sentido de comunidade e de responsabilidade social, deixámos de acreditar que temos um dever de cuidado para com os outros. Estamos desligados da política e dos políticos como estamos desligados uns dos outros. E, divididos, sucumbiremos.

Conclusão: o que é que falhou?

A resposta a esta pandemia foi desconcertada, desconcertante, e guiada mais pela opinião pública aterrorizada pela comunicação social do que pela razão científica. Não me parece nem inteligente nem honesto dizer que o problema não existe e que as vidas de toda a gente deviam ter seguido em frente ignorando esta nova doença. Se a tivéssemos ignorado, estávamos hoje igualmente arrependidos, exigindo respostas a um governo negligente, como estará o povo brasileiro se ainda puder falar daqui a dois meses. No entanto, e não obstante a urgência da situação, tomaram-se medidas extremamente sérias sem uma reflexão informada, racional e sensata sobre o que se estava a fazer e as consequências que daí adviriam. Esta pandemia (se decidirmos chamá-la assim) veio desvendar o que estava à vista mas que por preguiça ou incompetência ignoramos: a falta de confiança entre o público e as instituições governamentais, aliados aos desequilíbrios de comunicação entre estes e as fontes de conhecimento e a comunicação social, funcionam como dentes que falham nas roldanas de uma sociedade. E os abutres já rondam…

E sobre a segunda vaga? Uma vez um vírus introduzido na sociedade, enquanto ele se conseguir reproduzir, ele persiste. Sim, vão continuar a haver infecções e mortes Covid-19. Como há de gripe. O melhor que vocês podem fazer é ficar em casa se tiverem sintomas, espirrar no cotovelo, lavar as mãos frequentemente e especialmente ao entrar em casa e depois de se assoarem, evitar os beijinhos e apertos de mão, evitar espaços fechados com grande densidade populacional. Usem uma máscara, não para protecção adicional, mas para contribuírem para a supressão da propagação do vírus. Sigam as vossas vidas com estes cuidados e, quando a vacina estiver disponível, vacinem-se. Só isto. É perfeitamente possível e seguro ser simultaneamente livre e responsável – por nós próprios e uns pelos outros.

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