O abuso não começou aqui

Nove anos de idade. Morta. O povo revolta-se. Mas há mais. Há mais por detrás desta história, e há mais podridão que ainda nos assola.

Nove anos. Uma criança. Assustada. Naquele que poderá ter sido o seu primeiro acto de coragem, terá confessado a alguém que havia uma pessoa que lhe tocava de uma forma que ela não gostava – é impossível imaginar com que outras palavras teria uma criança de nove anos dito a alguém que era vítima de abusos sexuais. E quem ouve uma coisa destas da boca de uma criança de nove anos fica sem saber o que fazer. A negação vem sempre primeiro. Não é possível. Está a mentir. Quer atenção. É uma peste, mentirosa. Em tribunal, um pai confessa que confrontou a filha durante o banho, quis que ela lhe fizesse as queixas a ele. Consigo sentir no meu peito o aperto que apertou o coração da Valentina nesse momento. O sentimento de culpa e de asco ao próprio corpo vem primeiro; abraçou-se a si mesma e baixou os olhos. Depois a vergonha, e o inevitável sentimento de traição por parte da pessoa a quem confiámos o nosso segredo. Não quis falar.

Confrontados com a suspeita de que uma menina de nove anos possa ter sido abusada sexualmente, poderíamos cair na ilusão de achar que a reacção de quem a viu e ouviu seria abraçá-la, protegê-la. Não foi. Não é. Uma mulher aprende cedo que a culpa é sua. Sim, aos nove anos. Sim, antes de saber o que é sexo. Sim, por parte até do pai e restante família. Sim, até vocês. Não tendo estado no local do crime, projecta-se na minha mente a imaginada imagem de um pai enraivecido: a nódoa na pureza da filha, o nojo, a desonra, com certeza será mentira, e se não for o que é que esta galderiazinha terá feito para chamar a atenção de alguém assim (sim, aos nove anos de idade). Eu tinha doze quando me disseram que são precisos dois para dançar o tango, e por isso nada disto me surpreende. Por muito que me doa, que me ferva o sangue, que me revolte. Eu sei, e a Valentina aprendeu nas últimas horas antes da sua morte, que desde cedo o corpo da mulher deixa de ser seu, enquanto paradoxal e simultaneamente a mulher é responsável pelo que façam com o seu corpo.

Valentina foi agredida pelo próprio pai até espumar da boca. Foi depois abandonada, morta, sozinha, no mato. Descartada como lixo. Mas o abuso não começou aqui. A inocência da Valentina teria sido abusada antes – a verdade sobre isso já dificilmente chegaremos a saber. Em Portugal como no Mundo, após a violência a Valentina encontrou mais violência, como em tantos outros casos outras mulheres são violentadas e castigadas por isso, violentadas e obrigadas a conviver ou casar com o seu violador, violentadas e culpadas, violentadas e silenciadas, violentadas e mortas. O abuso não começou aqui. E não vai acabar aqui.

6 comments

  1. Muito bem escrito. Parabéns, mesmo que o assunto seja tão triste. Mas a parte que nos toca a todos têm sido como é habitual, muito descurada. Aqui encontrei um texto realista e objetivo, sem medo de mostrar a nudez da nossa culpa comum. Obrigada.

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    1. Obrigada pelas palavras. É precisamente disso que se trata: a nossa culpa comum enquanto sociedade. As ‘boas notícias’ são que se a culpa é nossa, também somos nós que temos nas mãos o poder de mudar as coisas. Que não nos falte a coragem, a determinação e a força para o fazer.

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  2. E a mãe?! Tudo me dói e não esqueci esta criança desde que ouvimos sobre ela. Mas também não consigo calar os meus mais acusadores pensamentos sobre a progenitora.

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    1. A mãe, se sabia do abuso sexual de que a filha era vítima, pecou por nada fazer. Mas não será a única. Muitas famílias ficam sem saber o que fazer nessas situações, muitas vezes a negação vem primeiro, e paraliza as pessoas. Não acredito que ela imaginasse que o pai da criança a fosse matar… Fica-nos esta história para aprendermos com os erros uns dos outros.

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      1. A minha questão era bem mais lata. Onde esteve e que mãe foi esta longo da vida da Valentina, surda aos seus apelos e que se permitiu, deixá-la em casa do progenitor, mesmo depois de lá já ter fugido.

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