Quarentena: Um Debate em Três Atos (Ato I)

Não foi longa a espera entre a chegada da pandemia à Europa e a ideia de se estabelecer um período de quarentena obrigatória. Com as imagens e relatos que nos chegavam de Itália e, de tão perto, de Espanha, foi (quase) unânime o sentimento de que era preciso resguardarmo-nos. Em Portugal, a opinião pública exigiu que se fechasse o país a bem da sua saúde, e o governo assentiu. Desde o começo deste processo, no entanto, houve vozes contra a quarentena obrigatória, pelas mais variadíssimas razões.

Conforme a situação avança, e conforme há mais informação e mais tempo, mas também mais dificuldades e mais cansaço, algumas das vozes contrárias ao que há dois meses parecia ser o consenso por unanimidade do país – até o orgulho do país – ganham mais notoriedade. Estas vozes dizem ter sido um erro a quarentena obrigatória, dizem que as medidas restritivas eram desnecessárias e que podem ter, aliás, causado tantos ou mais danos do que a própria Covid-19, doença causada pelo vírus SARS-Cov-2.

Para quem tem cumprido cuidadosamente as recomendações que lhes disseram ser essenciais para o bem comum, esta disparidade de opiniões é confusa e frustrante. Ambos os lados deste debate dizem ter provas e apoio científico para o que defendem. A informação, os gráficos, os números, a terminologia, nem sempre são fáceis de navegar. Inevitavelmente, ficam-nos as perguntas: afinal, temos de estar preocupados e ter cuidados, ou não? O nosso esforço de confinamento era necessário? Ainda é necessário? O medo que sentimos é justificado?

Tenho feito estas perguntas a mim mesma, e quis saber mais. Sabendo pouco do assunto – não sou médica, epidemiologista, virologista e nem tão pouco bióloga – quis ouvir a opinião de quem sabe dos dois lados do debate, para poder depois retirar as minhas próprias conclusões.

É com o intuito de partilhar com os meus leitores este processo de formar uma opinião com base em análise de duas perspectivas opostas que tive a ideia de criar um ‘Debate em Três Atos’. Este miniprojecto será composto por três artigos, sendo este o primeiro, o ato I, em que se apresentam os argumentos a favor da quarentena. De seguida, publicarei uma entrevista semelhante em que o convidado apresentará os argumentos contra. No ato III, partilharei as minhas próprias reflecções sobre as duas perspectivas e a minha opinião, formada com base na análise destes opostos.

HT
Convidado do blog para esta entrevista, Dr. Hélder Teixeira Aguiar, médico especialista em Medicina Geral e Familiar.

Para esta primeira entrevista, tive o prazer de convidar o  Dr. Hélder Teixeira Aguiar, médico especialista em Medicina Geral e Familiar com mestrado em cuidados paliativos pelo King’s College de Londres. Contactei o Hélder através do Facebook, onde regularmente sigo as suas actualizações quanto à situação da Covid-19 em Portugal e no resto da Europa. Apesar de estar na linha da frente na organização e prestação de cuidados a doentes com confirmação ou suspeita de Covid-19 em São João da Madeira (USF São João), o Hélder encontrou tempo para responder às minhas perguntas, pelo que fico muto agradecida. Aqui fica, então, a primeira entrevista deste Debate em Três Atos.


O que o motiva a manter as suas análises dos dados do país que vai partilhando regularmente no Facebook?

Bom dia e obrigado pelo convite. Senti, particularmente nas redes sociais, que as pessoas estavam receosas e um pouco perdidas num mar de informação, nem sempre coerente ou científica. Faltava ali uma linha orientadora científica que ajudasse as pessoas a interpretar os números e a comparar a nossa situação com a de outros países.

O Hélder é de opinião que a quarentena obrigatória foi essencial para o controlo do vírus em Portugal e no Mundo. Num post recente no Facebook, dizia que a prova disso é o facto de que o aumento de casos abrandou em Portugal após se ter executado o Estado de Emergência. É de todo possível que esse abrandamento tenha sido derivado da evolução normal do vírus numa comunidade, e que o abrandamento das infecções tenha sido independente do confinamento?

O SARS-CoV-2, o vírus responsável pela Covid-19, é um vírus que se transmite de pessoa para pessoa através do contacto directo ou indirecto com as gotículas respiratórias. Por isso, é natural que se adotarmos medidas que minimizem o contacto das pessoas umas com as outras o índice de transmissão da doença baixe e, consequentemente, haja uma diminuição do número de novos casos. Essas medidas podem passar pelo simples distanciamento social ou, em caso, mais extremo, pela quarentena. Foi o que a esmagadora maioria dos países do mundo aplicou. Cientificamente, não há dúvidas de que estas medidas são eficazes:

1) Em Hubei, na China, um estudo partilhado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) mostra que as medidas de isolamento reduziram o número de novos casos na ordem dos 6,4% por dia e a mortalidade em menos 7,9% por dia;

2) no Irão, menos 8 casos por dia e menos 8 mortes por dia;

3) em Hong Kong, a transmissão foi reduzida em 44%;

4) e, em Itália, as medidas graduais de isolamento reduziram a transmissão em 45% e menos 200 mil internamentos até 25 de Março. Uma outra análise em Itália mostra que a região de Lodi, que iniciou a quarentena a 23 de Fevereiro, aplanou a curva muito mais cedo que Bergamo, que iniciou a quarentena apenas a 8 de Março.

Para colocar isto num exemplo prático para as pessoas perceberem: se tivermos um familiar em nossa casa infetado com Covid-19, que medida iremos tomar para evitar a propagação do vírus dentro da família? Creio que todos concordamos que é a que está recomendada pelas autoridades de saúde pública: isolar a pessoa num quarto. Ora, tudo o resto não é tão eficaz: distanciar da pessoa sem a isolar será certamente melhor do que não fazer nada, mas o risco de transmissão é bem maior no seio familiar. Em sociedade, o princípio é o mesmo. O vírus evolui da mesma forma nas várias comunidades (países) e o abrandamento da transmissão tem sobretudo a ver com a aplicação e intensidade das medidas de isolamento que esses países tomaram.

É de sua opinião que as medidas restritas do Estado de Emergência eram absolutamente necessárias, ou considera a quarentena obrigatória uma interpretação política do conselho científico para distanciamento? Existe, na sua opinião, uma diferença entre a necessidade para a distância social e a quarentena obrigatória?

É uma boa questão científica. Há uma diferença desde logo à partida: o distanciamento social depende muito mais da colaboração das pessoas. A imposição de quarentena torna o isolamento uma regra e, por isso, vai teoricamente mais além. Mas em ciência é preciso comprovar. E a verdade é que há três semanas a prestigiada Cochrane publicou uma revisão sistemática que nos ajuda a consolidar o que já suspeitávamos: “os resultados indicam consistentemente que a quarentena é importante na redução da incidência e mortalidade durante a pandemia da Covid-19”, com o número de casos a reduzir 44 a 81% e o número de mortes a reduzir de 31 a 63%, dependendo do cenário. Se quisermos transpor para um exemplo prático, analisemos o caso da Suécia, o país-modelo para os que defendem a não aplicação de medidas de quarentena obrigatória. À data desta entrevista (3 de Maio de 2020), a Suécia tem 263 mortes por milhão de habitantes, enquanto os países nórdicos vizinhos que aplicaram medidas de quarentena, Noruega e Finlândia, têm apenas 39, e a Dinamarca 79 (e tenhamos em atenção que Suécia sairia, nas mesmas condições, beneficiada nesta análise, pois é o país com mais habitantes no denominador para “diluir” o número de mortos). Comparemos com Portugal – ambos os países têm cerca de 10 milhões de habitantes. Apesar de ter mais casos (provavelmente por aplicarmos muitos mais testes), Portugal tem apenas 38% (pouco mais de um terço) do número de mortos da Suécia. Estes valores estão em linha com os resultados da revisão da Cochrane que atrás referi. Sem surpresas, a quarentena de facto resulta, não apenas na redução de casos, mas também a salvar vidas. Há quem ainda defenda friamente que este excesso de mortalidade se observa sobretudo em pessoas com mais de 70 anos, que já teriam pouca esperança de vida. Mas será mesmo? Um estudo que se debruçou nas mortes por Covid-19 em Itália sugere que essas pessoas poderiam ter ainda mais 11 anos de vida, em média. Portanto, a quarentena tem que ser vista como uma medida eficaz para reduzir a mortalidade quando existe transmissão descontrolada dentro da comunidade, mas também temos de considerar que não é possível ficar eternamente em quarentena.

Qual será, na sua opinião, a razão pela qual colegas cientistas defendem a inviabilidade dos lockdowns? Concede algum valor aos seus argumentos? Por exemplo, considera que a quarentena obrigatória possa ter gerado mais mortes? Fala-se de um aumento de mortalidade geral, de doenças e condições clínicas não relacionadas com a Covid-19. Mas há também quem afirme que ter obrigado as pessoas a partilhar espaços fechados por tanto tempo pode ter acelerado infecção, para casos em que uma pessoa do agregado familiar já estivesse infectada (mesmo de forma assimptomática) quando se decretou a obrigatoriedade de ficar em casa. Qual é a sua opinião quanto a isto?

É sempre melhor ter a situação controlada que descontrolada. Ao controlar melhor a situação, e já vimos que a quarentena tem um impacto enorme, temos agora a hipótese de reabrir faseadamente os serviços e entrar num percurso de regresso à normalidade. Com poucos casos a circular na comunidade, temos mais probabilidade de recuperar gradualmente a confiança para as pessoas regressarem aos serviços de saúde. Sobre o excesso de mortalidade, que parece existir em Portugal, há um artigo muito recente do New York Times que aborda este assunto. O excesso de mortes relativamente a anos anteriores é generalizado em todos os países do mundo, incluindo na Suécia. É precoce dizer se é devido a este ou outro factor; as restrições são uma hipótese, mas provavelmente há mais que um factor. Provavelmente não estamos a contabilizar todas as mortes por Covid-19. Quero desde já transmitir uma confiança às pessoas: todas as instituições de saúde estão preparadas, com circuitos separados para doentes com suspeita Covid-19 e utentes sem essa suspeita. Perante uma consulta imprescindível, agendada pela sua unidade de saúde, as pessoas não devem deixar de comparecer.

Podemos voltar à nossa vida normal, como a vivíamos há 4 meses atrás? É seguro?

Creio que, nos próximos meses, voltaremos progressivamente a um “novo normal”. Nesse “novo normal” não há contacto físico fora do núcleo central familiar, há muito mais distanciamento social e muito menos reuniões presenciais, há mais teletrabalho e as viagens de avião em trabalho passarão a ser uma minoria. De certa forma, acaba por ser a imposição forçada de um mundo mais sustentável ao qual já deveríamos ter aderido há muito. No entanto, há um lado mais negro no meio disto tudo. Receio um pouco pelos avós e pelas pessoas de idade no geral, cujo contacto próximo com os familiares é imprescindível para o seu bem-estar e que serão os maiores prejudicados desta crise, nos próximos tempos. No futuro mais a longo prazo, com o crescimento da imunidade de grupo e uma possível vacina, é possível que a situação normalize mais. Sinto que nunca desejámos tão intensamente uma vacina que erradique de circulação o Covid-19, tal como desejámos no passado para doenças como a varíola, poliomielite ou o sarampo e que a memória de alguns já tinha esquecido.

Como será, e como acha que deveria ser, o futuro desta pandemia, em termos da resposta que lhe daremos?

Do ponto de vista da sociedade, teremos de evoluir para sermos muito mais empáticos, respeitosos e solidários uns com os outros. Por exemplo, a minha máscara protege a vida do outro. Assim como eu espero que os outros a usem para me proteger a mim. Teremos que pensar em mais respostas sociais aos idosos, que ficarão mais isolados física e psicologicamente. Do ponto de vista das instituições e empresas, têm que apostar mais no teletrabalho, sempre que possível. Já vimos que resulta para uma boa parte das situações. Os serviços de saúde têm de continuar o bom trabalho de acessibilidade aos doentes confirmados ou com suspeita Covid-19, mas têm agora que recuperar o tempo perdido de forma gradual em relação a todos os outros utentes. E, como nota final para todos nós, temos de saber confiar na ciência e nas autoridades de saúde. As respostas, quando existem, estão aí.

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