‘Quero lojas dos chineses fora da Europa!’ Porquê?

Nas últimas semanas é raro o dia que não veja partilhado no Facebook mais um quadradinho, sempre de cores diferentes, onde se exija que as lojas dos chineses sejam retiradas da Europa. Faço sempre questão de perguntar porquê, mas raramente obtenho resposta. Estes saltos de lógica mal pensados, com os pozinhos de xenofobia que sempre lhes assistem, são contraproducentes e sem sentido.

Se não, vejamos: mesmo que queiramos, na nossa fúria desesperada contra a má sorte que nos toca, revoltarmo-nos contra a China devido a esta pandemia, que têm os chineses residentes na Europa a ver com isso? Onde é que eles estavam quando estalou a pandemia em Wuhan? Isso, estavam em países da Europa, como eu e como vocês, a seguir com as suas vidas que foram, entretanto, interrompidas como as de toda a gente. Os chineses residentes e trabalhadores na Europa, como eu e vocês, ganham os seus salários, gerem os seus negócios e pagam os seus impostos, agora como antes e depois da pandemia. A vossa revolta contra a China deve ser direccionada contra a China ela-mesma, enquanto país, enquanto Estado. Se houve realmente má gestão da situação inicial em Wuhan, se realmente houve silêncio que deixou o Mundo no escuro e mal-avisado para se preparar, é ao governo chinês que temos de pedir justificações. Não aos chineses, e muito menos aos chineses que, estando na Europa, estavam tão alheios ao desenvolver da situação como eu e vocês.

Também aparece pelas redes sociais quem queira despejar as suas frustrações e medos nos chineses residentes na China. A fúria direcciona-se neste caso aos que consomem e vendem animais selvagens em mercados como os de Wuhan. Algo que parece escapar a estas pessoas (se por ignorância ou hipocrisia, não sei), é o seguinte: o consumo da carne de frango não é diferente do consumo da carne de morcego, ou de rato, ou de cão. O consumo de peixe, polvo, amêijoas, não é diferente do consumo de cobras, crocodilos ou pangolins. Vocês podem não estar habituados a que estas carnes façam parte do menu, mas isso é uma questão de gosto como quem não gosta de faisão; os ingleses também não comem coelho ou caracóis, que em Portugal são petiscos. Mas o consumo de animais não é mais ou menos limpo, nem mais ou menos ético, para animal A ou B. Se vocês aceitam comer animais, isso aplica-se hipoteticamente a todos os animais, ficando reservado o vosso direito individual de não comer o que não gostam. Independentemente de qual preferem, o consumo de animais, que implica também a proximidade dos mesmos durante produção, é uma fonte de doenças. Em Portugal como na China, e no resto do Mundo. A carne, principalmente a carne de vaca, está associada a 2.3 milhões de doenças ligadas à alimentação na Europa, todos os anos.

É precisamente em reconhecimento deste risco de doenças que existe a necessidade de estabelecer regras de higiene e segurança para todos os processos relacionados com o consumo de carne, do criador ao prato. Na China, creio que haja indícios suficientes para dizer que em muitos casos estas regras ou falham, ou são inexistentes. O consumo de animais selvagens sem nenhuma regulamentação aumenta os riscos de contágio. Mas: será que a culpa disto cabe toda às costas das pessoas chinesas? Porque é que estes mercados inseguros continuam abertos, porque é que o mercado de animais selvagens continua a ser permitido? Soubemos todos dizer que meterem-nos de quarentena sem poder trabalhar, retirando-nos o ganha-pão, seria desastroso para inúmeras famílias portuguesas (e assim é, de facto). Será assim tão difícil imaginar que alguém que há décadas ganhe o seu pão a vender animais num destes mercados, e que não tenha outra forma de sustento, o queira continuar a fazer? Ou somos só nos, os Europeus, que temos famílias para alimentar? Não caberá mais uma vez ao governo chinês fechar estes mercados e assegurar emprego mais seguro para estes cidadãos chineses?

Há outra vertente desta lógica de ‘não comprar chinês’ que é, mais uma vez, mal direccionada. Dizia-me alguém que a questão não era ser contra os chineses, mas sim defender que as pessoas voltassem a preferir comprar productos portugueses, para apoiar a economia portuguesa. Com isto eu até posso concordar, mas tenho de voltar a perguntar – o que é que isto tem a ver com expulsar os chineses de Portugal, da Europa? Ou melhor, vamos expulsar da Europa toda a empresa que vende em Portugal productos fabricados fora, é isso? Não sei se já deram ao trabalho de ler as etiquetas do que compram na Primark, na Adidas, e em tantas outras lojas de vestuário (por exemplo) a vender em Portugal. Made in China, made in Bangladesh, Taiwan… Muitas coisas que vocês compram em Portugal são feitas noutros países, onde a mão-de-obra é de tal forma barata que é mais lucrativo para as empresas fabricar lá e vender a milhares de quilómetros. Julgar os trabalhadores, que recebem perto de nada pelo seu trabalho, pela avareza destas empresas é um absurdo. Os trabalhadores pobres dos países onde as empresas escolhem fabricar os seus productos, como eu e vocês, sujeitam-se muitas vezes ao emprego precário que lhes aparece. Esta exploração de trabalhadores é feita um pouco por todo o Mundo, de forma mais ou menos descarada dependendo das leis laborais vigentes. Expulsar os chineses, ou as lojas dos chineses, da Europa, não vai resolver isto – o problema é imensamente mais abrangente.

A certo ponto da história da nossa humanidade decidimos que era importante que se extraísse lucro do trabalho. Digo do trabalho, porque do producto o lucro é limitado: há sempre um custo associado com produzir-se um par de botas, e um preço que as pessoas vão aceitar (ou ser capaz de) pagar. Mas às empresas de hoje diz-se que sobreviver significa crescer, então o lucro que se faz no par de botas tem de ser maior de um ano para o outro. Se as pessoas não aceitam pagar mais pelo mesmo par de botas (com a mesma qualidade), a maneira mais óbvia de gerar mais lucro é pagando menos a quem as produz, a quem trabalha (deixando por sua vez quem trabalha sem poder pagar mais pelo par das botas). É este ciclo vicioso que leva as empresas aos países como o Bangladesh, o Taiwan e a China, onde as pessoas com fome aceitam uma taça de arroz ao fim do dia pelo seu trabalho. Depois as mesmas empresas vendem-nas a vocês, levam-vos o dinheiro sem gerarem empregos onde vocês vivem, e se for preciso ainda arranjam maneira de não pagar os impostos que ajudariam a financiar os vossos sistemas de saúde, educação, transportes, reformas. Nada disto é culpa nem dos trabalhadores chineses, nem dos taiwaneses, nem dos portugueses.

As lojas dos chineses, embora seja verdade que não vendem maioritariamente productos portugueses, criam empregos e pagam impostos com a mesma regularidade e honestidade que qualquer pequeno empresário português. Mais que isso, oferecem alternativas às famílias portuguesas a quem não pagam o suficiente para comprar um par de botas mais caro. Contribuem, por isso, para a economia portuguesa, e o mesmo se aplica para outros países da Europa. Reitero, mais ainda, que os chineses não têm, obviamente, culpa nenhuma nem do vírus nem da gestão da pandemia – nem sequer se pode dizer que tenham votado nos responsáveis por essa gestão, visto que a China é controlada pelo Partido Comunista Chinês, o único partido permitido no país.

Querer escorraçar os chineses da Europa é, portanto, um simples exercício de xenofobia e raiva mal gerida e mal orientada, nada mais. Os chineses são pessoas como nós, trabalhadores como nós, com preocupações como as nossas, com ambições como as nossas. Os que moram ao nosso lado e os que moram do outro lado do Mundo. Vale a pena lembrar isso.

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