A nova confusão da Casa Branca: SARS-CoV-2, luz solar, UV, temperatura e desinfectantes

É quase impossível ser cientista em 2020 sem passar a vida a desdizer o actual presidente dos Estados Unidos da América. No seu mais recente rasgo de insipiência, Trump aparece em frente às câmaras a sugerir que se elimine o vírus SARS-CoV-2 (o coronavírus responsável pela doença covid-19) através de exposição a ‘luz ultravioleta (UV) muito poderosa’ ou injectando desinfectantes no corpo.[1-2] Estas sugestões são avançadas após William Bryan, o consultor científico da Homeland Security, apresentar um estudo realizado pelo seu departamento – um estudo que ainda ninguém viu e ao qual ainda mais ninguém teve acesso. Os resultados ainda não foram confirmados e ainda não passaram por um processo de revisão por outros cientistas, o que é normalmente o sistema de controlo de qualidade da comunidade científica. É importante analisar o que foi dito sobre este estudo e separar o que há de verídico ou promissor, daquilo que é a imensa confusão (e ignorância) de Trump.

William Bryan começa por apresentar um slide que mostra os resultados do estudo acima referido, que são apresentados em termos da meia-vida do vírus em certas condições. O conceito de meia-vida refere-se a uma medida de decaimento exponencial de uma dada população inicial. Simplificando, um menor valor de meia-vida significa um desaparecimento mais rápido do vírus. De acordo com os dados apresentados, quando o SARS-CoV-2 está numa superfície com temperatura e humidade constantes, a presença de luz solar parece acelerar a meia-vida do vírus de 6 horas para 2 minutos. Quando o vírus está na forma de um aerossol (em gotículas de fluídos respiratórios, por exemplo) a meia-vida passa de 60 minutos no escuro para 1.5 minutos na presença de luz solar (mantendo a temperatura e humidade constantes, mais uma vez). Estes resultados poderiam ser animadores, mas nem o estudo nem a conferência de imprensa esclarecem algo que é crucial saber-se: o que quer dizer luz solar no contexto deste estudo? No slide apresentado só se refere a radiação como ‘Summer’ (Verão), mas Trump falou de radiação UV. Em que ficamos?

Os leitores poderão perguntar-se porque é que isto interessa, e era mesmo aqui que eu queria chegar. Em primeiro lugar, não é nenhuma novidade que radiação UV possa ser utilizada como desinfectante, não só contra vírus mas também contra bactérias.[3] A radiação UV é geralmente distinguida entre UVC, UVB e UVA, dependendo do comprimento de onda específico. É a parte mais energética da radiação UV, a UVC, que mais certamente poderá ser usada como desinfectante. E aqui está a primeira dificuldade: é que da mesma forma que radiação UVC mata bactérias e destrói vírus, também destrói as células do corpo humano, e seria impensável expor alguém a radiação UVC. É, no entanto, perfeitamente exequível desinfectarem-se superfícies e salas com este tipo de radiação, com as medidas de segurança adequadas. Aqui podemos também falar do facto de que a radiação UVC ficaria apenas à superfície da pele, e não poderia nunca penetrar o corpo através da pele como sugeriu Trump. O que determina se um tipo de radiação penetra ou não os tecidos do corpo humano é o seu comprimento de onda. Os raios-X, que penetram o corpo (por isso permitem ver os nossos corpos por dentro) têm comprimentos de onda entre 0.1 e 10 nanómetros. Os raios UVC têm 200-280 nanometros e não podem, portanto, penetrar a pele humana.

Mas, a César o que é de César: o estudo não fala explicitamente de raios UV. O slide dizia apenas ‘solar’ no topo da coluna, e para cada linha mostrava apenas as categorias de ‘None’ (nenhuma) ou ‘Summer’ (Verão). Esta terminologia leva-me a assumir (embora sem qualquer confirmação) que o estudo foi realizado para amostras ou em ausência de qualquer radiação, num ambiente escuro, ou expostas a radiação solar comparável com a radiação solar no Verão – se seria o Verão português ou o Verão da Escandinávia, não sabemos. Esta descrição vaga das condições do estudo, que reflectem uma prática científica francamente pobre, deixa muitas perguntas. A radiação solar contém raios UVB e UVA (os raios UVC ficam retidos na atmosfera e não chegam à superfície da Terra) – mas qual destes é sugerido no estudo que seja responsável pela desinfecção? Qual é a relação entre a meia-vida do vírus e o comprimento de onda da radiação a que é exposto?

Talvez mais importante ainda que isto seja perguntar exactamente qual é a fonte de radiação usada no estudo, o que tem uma influência enorme na interpretação dos resultados do mesmo. Por exemplo, se estivéssemos a falar de luz laser, a intensidade da radiação seria muito maior do que a radiação solar que nos atinge na rua (o Sol não é um laser, a sua luz é mais difusa), e portanto os resultados do estudo da Homeland Security não seriam relevantes no contexto da irradiação solar do dia-a-dia. Mesmo se tiver sido usado um simulador solar, a intensidade destes simuladores continua a ser geralmente muito mais elevada do que a intensidade real do Sol que nos chega à pele e, portanto, o problema da não validade da comparação dos resultados manter-se-á. Mas será que os estudos usaram a radiação solar propriamente dita, e as amostras foram colocadas na rua, ou à janela? Mas então porquê a terminologia de ‘Verão’, se não é ainda Verão nos EUA? Qual é, afinal, o tipo de radiação de que estamos a falar e qual a sua fonte? Estas incertezas deitam por terra qualquer tentativa de retirar conclusões dos resultados deste estudo, e de entender se podemos dizer que o Sol vá eliminar o vírus das superfícies ou reduzir a sua transmissão.

Como cientista que passou os últimos anos a estudar as interacções entre luz e matéria, e especificamente a estudar os mecanismos de acção dos ingredientes activos dos protectores solares, sinto-me também na obrigação de fazer o seguinte reparo, que já faz parte do meu reportório: exposição prolongada e excessiva à radiação UV do Sol, seja ela UVA ou UVB, é prejudicial à saúde. É sabido que a radiação UV está directamente ligada ao cancro da pele e todos os cuidados são poucos, especialmente porque todos tendemos a ignorar os cuidados mais eficazes: evitar o Sol, procurar sombra, cobrir a pele. Por favor, não saiam agora da quarentena para se irem estender ao Sol por períodos perigosamente longos, numa tentativa de combater o vírus. Mesmo que a radiação UVA ou UVB vos desinfectasse a pele, colocar-vos-ia também em risco acrescido de desenvolver cancro da pele. E, como já vimos, a radiação UV não penetra através da pele, e portanto não se coloca sequer a hipótese de vos desinfectar o corpo internamente (independentemente dos devaneios do Trump).

Finalmente, quero esclarecer a diferença entre radiação e temperatura. Embora as nossas mentes estejam condicionadas a associar o aparecer do Sol (ou seja, mais radiação) a um aumento de temperatura, e embora haja uma relação real entre estas duas coisas, os efeitos de cada uma no vírus devem ser entendidos de forma independente. A temperatura é uma medida de energia vibracional das moléculas: se a sala onde vocês se encontram está fria, as moléculas estão quietinhas; se está quente, é porque as moléculas se movem mais. O tipo de radiação relacionado com estas vibrações é a infravermelha, com comprimentos de onda compreendidos entre 700 nanómetros e 1 milímetro. Os mecanismos de acção da radiação UV e da temperatura sobre o vírus são, portanto, diferentes.[4] Sem me perder em detalhes, o que precisa estabelecer-se é se é a radiação que mata o vírus (se ele morre num dia frio mas solarengo de Inverno), se é a temperatura (se ele morre num dia quente mas nublado de Verão) ou se as duas variáveis têm algum efeito. O estudo da Homeland Security parece sugerir que tanto a radiação como a temperatura aceleram a eliminação do vírus em superfícies (o efeito da temperatura em aerossóis não foi estudado ou, pelo menos, não foi apresentado). Mas, mais uma vez, sem sabermos precisamente as condições laboratoriais destes testes, sem sabermos o que estamos a comparar com as condições do mundo real, não podemos saber se estes resultados se traduzem em boas notícias para os meses de Verão que se aproximam.

Para os leitores mais cépticos que possam estar a pensar que, visto que a gripe desaparece no Verão, o SARS-CoV-2 o fará também, lembremos duas coisas importantes. Primeiro, que cada caso é um caso e que é preciso cautela ao comparar sistemas parecidos mas diferentes. No final das contas, até termos certezas não sabemos nada, e é difícil convencer um(a) cientista sério a ter certeza do que quer que seja. Só sei que nada sei, como diria o Sócrates (o grego). O segundo aspecto a ter em conta é que é incorrecto dizer-se que a gripe desaparece no Verão, e é até incorrecto dizer que a sazonalidade da gripe se explica pela reação química ou biológica do vírus à temperatura. A sazonalidade é uma combinação complexa não só de causas biológicas e ambientais, mas também sociais. O facto de as pessoas tenderem a ocupar espaços públicos mais fechados no Inverno, por exemplo, é um dos factores que deve ser considerado ao tentar descrever e simular a evolução e sazonalidade da gripe.[5] As mesmas considerações serão necessárias para se entender a evolução do SARS-CoV-2.

Finalmente, quanto às declarações de Trump sobre desinfectantes… enfim. Não havia grandes dúvidas que desinfectantes (lixívia, álcool, etc.) são eficazes a eliminar o vírus [6], mas Trump tem-se revelado realmente lento a aceder a informação amplamente disponível. Cabe-me apenas reiterar o óbvio: por favor não bebam, não injectem, não consumam desinfectantes de forma absolutamente nenhuma. Como Trump conseguiu sobreviver ao infantário, é um mistério.


Fontes:

  1. Em inglês, com vídeos:
  2. Em português:
  3. UV como meio de desinfecção, incluindo contra o SARS-CoV-2:
  4.  Yamaya, M., et. al.Effects of high temperature on pandemic and seasonal human influenza viral replication and infection-induced damage in primary human tracheal epithelial cell culturesHeliyon (2019), 5:2.
  5. Lofgren, E., et al., Influenza Seasonality: Underlying Causes and Modeling Theories, Journal of Virology (2007), 81:11.
  6. Ansaldi, F., et al., SARS-CoV, influenza A and syncitial respiratory virus resistance against common disinfectants and ultraviolet irradiation, Journal of Preventive Medicine and Hygiene (2004), 45.

 

*Estes artigos são os chamados ‘preprints’, o que significa que ainda não foram submetidos a peer review, o tal processo de controlo de qualidade da comunidade científica que menciono no artigo. Normalmente, artigos científicos só são publicados depois de peer review, com a excepção de casos em que seja do interesse da sociedade que a informação seja disponibilizada mais rapidamente. Assim sendo, embora sejam de fontes confiáveis, os resultados apresentados nos artigos marcados com um asterisco na lista acima carecem ainda de confirmação.

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