Prendemo-nos. Saibamos libertar-nos.

Confesso que só tomei total noção da restrição de liberdades implícita no Estado de Emergência no próprio dia em que ele foi decretado. Tomei essa noção, precisamente, porque quem o decretou e apoiou fez questão de frisar que não se trataria de uma suspensão da democracia. Inquietei-me com estas palavras – porque seriam necessárias? Só depois de ler, então, mais sobre o assunto, percebi a dimensão do perigo.

‘Fiquem em casa’ é um bom conselho. Suspensão de direitos de deslocação, aglomeração, manifestação, à greve e à resistência, soa bem mais sinistro. Tão perto do 25 de Abril, que a pulso nos trouxe alguns destes direitos, entregámo-los. Aliás – exigimos que no-los tirassem. Continuo ciente de que tanto a Ciência como a História inequivocamente indicam a necessidade de distanciamento social para conter epidemias, quanto mais pandemias. Não há dúvidas que era (é) preciso distanciarmo-nos. Para além disso, li até um artigo no The Times que, baseado na análise das acções de 43 cidades contra a gripe espanhola de 1918, revela que regimes de quarentena não só foram benéficos do ponto de vista da saúde pública, mas não levaram necessariamente a desastre económico, quando geridos de forma atempada (as razões pelas quais as quarentenas de 2020 parecem ter destruído o sistema económico já serão pano para outras mangas). Ainda assim, reconhecendo a indispensabilidade da quarentena, tenho hoje dúvidas de que o Estado de Emergência – a supressão de direitos, lembremos – fosse estritamente necessário e completamente inevitável nos esforços para que nos distanciássemos. Fica-me, pois, esta lição sobre como é fácil abrirmos mão das fortunas que não sabemos (ou não lembramos) que temos. Resta-me (resta-nos) ficar agora alerta, para que não nos deixemos embalar daqui a uma masmorra, perguntado mais tarde ‘como foi que isto aconteceu?’.

É, por isso, de liberdade (no Abril dos 46 anos dos cravos) que quero falar. Ou, melhor, do carácter absolutamente imperativo da nossa vigília ao Estado de Emergência, e da coragem de nos sabermos libertar. Creio que seja fácil entender que nos amarram quando sentimos a corda no tornozelo; mais difícil será ter a coragem de sair à rua crendo que a morte paire no ar à nossa volta. O medo que nos levou a gritar que nos prendessem poderá vir a ser o mesmo medo que nos impede de nos libertarmos. Há quem já prometa não voltar a sair de casa até ser seguro – até haver uma vacina. Mas o Mundo não pode, não deve e não tem de esperar pela vacina para se retomar alguma normalidade, e é importante que entendamos isso. O tempo de sair de casa chegará antes de chegar a vacina.

É inevitável que as nossas vidas e os nossos hábitos se alterem quando voltarmos à actividade. É, aliás, imperativo que isso aconteça. Este Verão não vai ter festivais, nem romarias, nem concertos, nem esplanadas cheias. Este Verão não terá aglomerações nas praias, nos parques nem nas praças. Este Verão vamos ter de continuar a espaçar-nos uns dos outros. Os beijinhos do olá e do adeus, os apertos de mão, os abraços… a nossa identidade de povo de afectos vai ter de ser adiada. Ou… reinventada. Não há dúvida de que até voltarem os afectos, não volta a nossa normalidade. Mas vamos poder voltar a estar uns com os outros, a encontrarmo-nos e conversar. Vamos poder voltar a sentar num banco de jardim e ler um livro. Vamos poder voltar a sair de casa. Temos de ter a coragem de entender que isso é possível – que é (vai ser) seguro. Ao voltarmos a povoar as ruas, o uso de máscara passa a ser mais relevante. O álcool gel vai passar a fazer parte da sequência carteira-chaves-telemóvel que repetimos antes de sair de casa. Mas é (vai ser) seguro que nos libertemos, de forma responsável, do medo que nos prende em casa. Precisaremos soltar-nos do medo que nos prende a mente para podermos, se necessário, vir a revoltarmo-nos contra quem nos ouse manter confinados para além do tempo necessário. Questionemos, quando e se esse dia chegar, porque nos prendem.

Soubemos reconhecer a ameaça de uma pandemia e soubemos agir de acordo com a noção do perigo. Antes ainda de nos terem dito que nos resguardássemos, já muitos de nós o fazíamos. A certo ponto, quiçá distraídos, entregámos direitos que podem vir a ser cruciais para que nos libertemos da prisão a que nos rendemos. Fiquemos atentos, e saibamos reconhecer as ameaças que se escondem na insistência de manter um povo num regime sem direitos de deslocação, aglomeração, manifestação, à greve e à resistência. Saibamos libertar-nos.

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