Sejamos mais moderados nas análises

Em colaboração com Filipe Rodrigues Lopes

Como cientista, acredito que o autor do artigo que saiu no Observador no passado dia 15 de Abril (Visão Factual Epidemiológica: Portugal é um dos países mais perigosos do mundo na Covid-19, por Pedro Caetano) conheça os perigos de se olhar um conjunto de dados por uma lente só. Um cientista deve esforçar-se por apresentar diferentes resultados, perspectivas, premissas e limitações para o tópico de estudo, para tentar apresentar aos leitores as conclusões e a história final mais abrangente possível. Este esforço para ser abrangente na análise parece ter escapado ao colega autor do artigo acima mencionado, pelo que fica aqui o meu contributo.

Comecemos pelo primeiro ponto do artigo no Observador, tão convenientemente formatado numa lista de fácil consumo. ‘Portugal é um dos países com mais casos confirmados’, não estando muito longe dos casos por milhão da Itália, França ou EUA. É verdade. Mas a Itália testa (por milhão de habitantes) 20,577 de pessoas, França 7,103 e os EUA 10,926. No Brasil, também mencionado no artigo, os testes são apenas 296 por milhão de habitantes. Em Portugal, testamos 22,969 pessoas por milhão de habitantes. A comparação de números totais confirmados apenas faria sentido se a frequência de teste fosse comparável nos diferentes países, que não é. Considero perfeitamente expectável que um país que testa mais também tenha mais casos confirmados, mesmo por milhão de habitantes – onde não há testes, não há casos confirmados. Ainda no tema de testes, sendo que testar em massa é uma das medidas que a Organização Mundial de Saúde (OMS) aponta como crucial para o controlo desta epidemia, Portugal apresenta números acima de muitos países Europeus, incluindo os já acima citados, mas também a Alemanha. Somos o 5° país da UE que mais testa por milhão de habitante. Extrapolaria que Portugal é, portanto, o 5° país da UE com mais noção da real dimensão do contágio.

O seguinte ponto refere-se ao número de mortes por milhão de habitantes. À data da análise do Pedro (13 de Abril de 2020), os EUA tinham 30% mais mortes relacionadas com COVID-19, comparando com Portugal. A 18 de Abril, esse número tinha subido para 40%. Esta subida reflecte o facto de os números totais de mortes (como de casos) nos EUA continuarem a subir, enquanto em Portugal entrámos já num período de abrandamento e, no que toca a casos, descida. Convém notar que esta observação só é válida porque o vírus não chegou aos EUA muito mais tarde do que a Portugal – aliás, no dia em que Portugal registou os primeiros dois casos de coronavírus, a 2 de Março, os EUA já tinham atingido os 100 casos. De resto, tanto Espanha e Itália têm mais mortes por milhão de habitantes que Portugal, como o têm também a França e o Reino Unido.

Mas é aqui que entramos no campo em que haveria um ponto válido para o Pedro fazer no seu artigo. Temos ligeiramente mais mortes relacionadas com COVID-19 por milhão de habitantes do que tem a Alemanha, mas muitas mais que a República Checa, como refere o Pedro no seu artigo. Temos também mais que o Brasil mas, dada a acentuada falta de testes nesse país, fica a pergunta de quantas mortes relacionadas com COVID-19 não são contabilizadas. Estes números aliam-se ao baixo número de casos recuperados em Portugal (3% dos casos totais confirmados), comparado com outros países da UE. Por milhão de habitantes, Portugal tem 59 casos recuperados de COVID-19; Espanha tem quase 1600, a Alemanha tem 911, Itália 705, França 527, EUA 193, República Checa 114, Brasil 66. Comparando com todos estes casos, Portugal revela, assim, um pior desempenho no que toca à recuperação de doentes com COVID-19. Não sei se haverá, neste caso, uma questão de números e de contagens que explique esta discrepância. Acredito que estes são os números que nos devem fazer reflectir sobre o estado do SNS e a má gestão do mesmo ao longo dos últimos anos. Porque é que as pessoas não recuperam em Portugal ao mesmo passo com que recuperam nos outros países? Especialmente se no que toca a transmissão, contágio, teste, Portugal se encontra numa boa posição em relação a esses países? O que é que falta nos nossos hospitais?

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O artigo continua, dizendo: ‘É crucial em epidemiologia ou ciência levar em conta esta diferença de tamanho da população dos países’. Considero que seja uma avaliação pertinente. Mas o que eu penso que seja também óbvio para um epidemiologista é que quando se fala da transmissão de um vírus, outra coisa a ter em conta é a densidade populacional. E os EUA, por exemplo, não terão por todo o seu imenso território uma densidade populacional constante, e daí nem sempre comparável com a de Portugal. Eu não sou epidemiologista. Mas parece-me que este detalhe também merecia ter sido explorado.

Muito me surpreendeu que um artigo que abre com uma mensagem de repúdio a reportagem sensacionalista e propagandista dos números, que eu apoio por completo, se tivesse estendido numa análise tão unilateral. Estou longe de embarcar em ilusões de que Portugal é o país milagre em que a resposta à pandemia foi excelente. Mas como podemos fazer as pessoas voltar a confiar na ciência se os diferentes relatórios que lhes apresentamos são tão drasticamente díspares? Quando as ‘verdades absolutas’ mudam de um autor para o seguinte? Sejamos cientistas (e jornalistas, repórteres) conscientes e responsáveis, e saibamos dizer às pessoas que também a ciência é mutável e cheia de incertezas, e que estamos todos a tentar fazer o melhor que sabemos, que podemos, e que é possível. A perspectiva do Mundo que mais se aproxima da Verdade é sempre aquela a que se chega de uma posição de transigência.

Fonte de dados: https://www.worldometers.info/coronavirus, acedido a 18/04/2020

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