Julguei-me asa, e sou raiz.

Prometi a mim mesma que não deixava o ano acabar sem reflectir sobre a década que se passou. Acabo por só escrever estas palavras já no dia 1, mas vou começar o ano sendo menos dura comigo mesma, perdoando as minhas falhas, como me tem ensinado a fazer a segunda metade da década passada.

Em 2010, mudei a minha vida drasticamente. As minhas escolhas desse ano definiram toda a minha década e para sempre definirão a minha trajectória. Tinha 18 anos e não tinha noção da força transformativa das minhas acções. Não tinha noção de uma lista imensa de coisas. Na altura, por significantes que fossem estas decisões, as suas consequências não eram claras. Tudo acontecia sobre um pano complexo de milhentos outros eventos que hoje são barulho de fundo no filme da minha vida, agora com uma narrativa mais clara.

Comecei a década numa estranha nuvem de me saber capaz, mas de não saber o meu valor. Estas são duas coisas diferentes. Acreditava no Mundo, nos sonhos, nas oportunidades e na mudança, e essa crença foi suficiente para me fazer voar voos algo vertiginosos. A falta de medo só pode ser explicada pela ignorância. Ao mesmo tempo, vivia no início da década uma das fases mais humilhantes da minha vida, tendo permitido ofensas – ataques perversos que abriram feias feridas no seio de quem sou, de quem era – que jamais permitiria hoje. Relembro vários episódios dessa época completamente incrédula que a mesma pessoa que me conheço hoje tenha permitido então que eles acontecessem. Mas a década foi de profunda mudança.

Dos 18 anos aos que serão, em Abril desde ano que brota, 28, não sei se me descobri, se me construí. Quase fugi de casa com sonhos de voar, e não podia imaginar o que me esperava. Conheci, verdadeiramente, o cansaço e o desespero, a saudade e o amor. Senti abandono, de mim mesma e dos outros, senti-me à deriva, senti-me perdida. Tantas vezes. Questionei (questiono) as minhas escolhas. Tantas, tantas vezes. Precisei saltar antes de sentir medo. Mas é também por isso que sei, hoje, o que há em mim. Estou segura, hoje mais do que nunca antes na minha vida, do que eu verdadeiramente quero. Daquilo em que acredito. Daquilo que eu estou (e não estou) disposta a fazer, dizer, ouvir e calar. Segura daquilo de que sou capaz e, acima de tudo, do que valho. Das coisas que definem (e não definem) o meu carácter e o meu valor – e o carácter e valor dos outros.

Tive, nesta última década, o imenso privilégio de aprender coisas, nos livros, nas pessoas e com pessoas. Um imenso privilégio de ter podido forjar as ferramentas com que desconstruir este Mundo e imaginá-lo um Mundo melhor. Consegui a minha plataforma de onde o mudar, ainda que devagar, ainda que com pouco alcance de cada vez. Mas a verdadeira mudança sempre aconteceu devagar. Em 2010, atirei-me de um grotesco precipício de olhos fechados e o que me guiava era uma abstracta vontade de sucesso – de voar. Fecha-se a década e hoje sei: julguei-me asa, e sou raiz. Hoje o que me move é dar de volta o que me foi dado, dar de volta o que eu conquistei. Não quero nada desta vida. Absolutamente nada. Quero dar tudo de volta, ter o prazer de poder estender a mão a quem caminha comigo, e a quem vem a seguir.

Ainda bem que decidi tirar este tempo de reflecção. Não deixa de ser curioso que eu tenha começado a década num comprimento de onda de desapego, de paz e de amor, e que venha a acabar a década numa mesma frequência, mas que ela tenha um significado profundamente transformado. Entendo hoje coisas que não sonhava entender na altura. Vejo hoje coisas que não via na altura – e muitas delas doem. Choro muitas vezes. Perco a esperança muitas vezes. Ainda me perco muitas vezes, mas sempre me volto a encontrar; a raiz não deixa já que me abale o vento. Vivo na certeza que usei a última década para construir uma extraordinária versão de mim. Com força, com voz e com engenho; ainda com medo, mas sem medo de ter medo. Sem medo de fraquejar, não porque não fraqueje, mas porque aprendi a levantar, lavar a cara e lutar outra vez.

Que comece a próxima década: só agora, resoluta e feita de mim, posso construir o Mundo.

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