Campanha anti-tabágica do Hawaii Public Health Institute.

Alguém pergunta à Meghan Markle se princesa fuma ou não?

Esta polémica sobre se é aceitável dizer que ‘princesa não fuma’ talvez fosse mais rapidamente resolvida se perguntássemos à Meghan Markle, não? Se bem que ela não é princesa, é duquesa, e talvez as coisas sejam diferentes. Talvez princesa não possa fumar, mas uma duquesa talvez já possa. Será? Não percebo nada de realeza.

A Princesa Leia do Star Wars, ou melhor, a actriz que a protagonizou, Carrie Fisher, com certeza podia. Podia e fê-lo, anos a fio, até que morreu subitamente aos 60 anos, vítima de ataque cardíaco; outros 3 milhões de mortes por ano são mundialmente atribuídas a doenças cardiovasculares associadas ao tabaco, de acordo com a Organização Mundial de Saúde. O Instituto de Saúde Pública do Hawaii utilizou o caso de Carrie Fisher, encarnada na Princesa Leia, para passar a mensagem de que fumar mata: mata muito e mata cedo, e é preciso que reduzamos o consumo de tabado, no Hawaii como em Portugal, e no resto de Mundo. Mas porque é que o Hawaii faz uma campanha anti-tabágica com uma princesa e isso não tem problema nenhum, enquanto em Portugal se disse que uma princesa não fuma e a casa veio abaixo?

Campanha anti-tabágica do Hawaii Public Health Institute.
Campanha anti-tabágica do Hawaii Public Health Institute, figurando a Princesa Leia (de Star Wars). O anúncio fala, especificamente, da actriz que protagonizou o papel de Princesa Leia, Carrie Fisher, fumadora desde cedo e que morreu subitamente aos 60 anos de um ataque cardíaco. São também mostrados ao público alguns dados estatísticos sobre o tabaco, incluindo que é a maior causa de mortes preveníveis no Hawaii e no Mundo.

O anúncio da campanha anti-tabágica portuguesa, em forma de curta metragem, a que aqui me refiro mostra uma mulher (Paula Neves) com óbvias dificuldades respiratórias e uma saúde debilitada devido ao tabaco que ainda assim se recusa a deixar de fumar. Apercebemo-nos entretanto que essa mulher é mãe de uma menina; as memórias de tempos mais saudáveis aparecem em flashes e, por fim, a mãe pede à filha que seja sempre a sua princesa, advertindo depois que ‘uma princesa não fuma’. É esta última frase que tem sido o tema fracturante de opiniões pelo país. Alguns, incluindo a equipa que produziu o filme, vêem apenas e só o amor de uma mãe por uma filha, pedindo-lhe que não cometa os seus erros. Outros acharam sexista o facto de se mostrar a mulher sentindo-se culpada pelas suas escolhas, com um homem aparecendo também no filme, incrédulo e frustrado ao vê-la fumar um cigarro apesar da sua condição. Outros acharam a palavra ‘princesa’ despropositada, por várias razões incluindo por Portugal não ser uma monarquia. Outros ainda, acharam a frase ‘uma princesa não fuma’ sexista, e é maioritariamente à volta desta questão sexista que sem tem gerado o debate.

Esta curta metragem é, que eu saiba, uma das mais sérias tentativas que recentemente se viram no combate ao consumo do tabaco em Portugal e é, por isso, extremamente importante. Acho até que já vem tarde: em Portugal o tabaco é ainda uma coisa muito social quando devia ser anti-social. E digo isto mesmo fumando muito esporadicamente – é um dos meus comportamentos de altíssimo risco de que mais me arrependo. Vamos repetir o facto importante que já acima referi: o tabaco é a maior causa de mortes preveníveis em todo o Mundo. 7 milhões de pessoas morrem às mãos do tabaco todos os anos: os 3 milhões devido a doenças cardiovasculares associadas ao tabaco, e outros 4 milhões devido a outras doenças relacionadas com o consumo de tabaco. E todas e cada uma destas mortes poderia ter sido evitada, se estas pessoas tivessem deixado de fumar. Vamos pensar nisto um bocadinho? Nestes números assustadores? Não é de estranhar que se invista tempo e dinheiro em campanhas anti-tabágicas. Esta mais recente em Portugal, chamada ‘Opte Por Amar Mais’ é relevante, essencial e de extrema importância. Não há como questionar isso.

O vídeo foi criado para apelar às emoções das pessoas, explorando a relação de uma mãe com a sua filha, lembrando as pessoas que o tabaco lhes corta a vida mais curta do que tem de ser e que traz sofrimento desnecessário. Fê-lo de forma eficaz: a realidade é retratada de forma muito forte e verdadeira, como devia ser. É uma terapia de choque. Nestes termos, acho a campanha fantástica. Tenho de dizer, no entanto, que numa curta metragem em que se ouviram pouco mais de 10 frases, foi no pouco que se disse que se perdeu a potencial genialidade do ‘Opte por Amar Mais’, e foram as últimas palvras que deitaram por terra a mensagem que devia ter sido o foco desta campanha, e que a lançaram para a controvérsia.

Uma princesa não fuma.

Uma frase que revela ferozmente o tipo de sexismo subtil que se esconde ainda no nosso dia-a-dia, que passa despercebido e que muitos não conseguem tão-pouco reconhecer como sexismo. O problema não é com a palavra ‘princesa’ e o problema não é a democracia vs. monarquia em Portugal (pelo amor do bom senso…). Chamar princesa a alguém não tem, necessariamente, de trazer conotações negativas ou de querer dizer que ela não possa ser ‘guerreira’. Não é pela palavra ‘princesa’ que peca esta curta metragem. Uma menina pode ser princesa, se quiser, e pode chamar-se uma menina de princesa com todo o carinho do Mundo. Mais, creio que o sentimento de culpa que é retratado pela Paula Neves é totalmente compreensível e nada tem de sexista – qualquer pessoa, homem ou mulher, se sentiria culpada por ter feito uma escolha na vida que, para além de deteriorar a sua saúde, eventualmente a deixou com menos tempo para passar com os filhos. Creio que seja também esse sentimento de arrependimento que o filme pretenda transmitir, para que as pessoas possam ser sensibilizadas a fazer a escolha certa antes de terem de se arrepender. É, no entanto, a frase ‘uma princesa não fuma’, toda ela e a cultura por detrás dela, que é sexista.

Porque, vejamos, em vez de educarmos esta criança (e, portanto, as audiências desta curta metragem) para os perigos e efeitos negativos do tabaco, entregamos a mensagem em forma de condicionamento comportamental e dizemos a esta criança que, se quiser ser ‘princesa’, há todo um conjunto de comportamentos a que ela terá de se submeter, incluindo não fumar. Ou seja, a mensagem do ‘Opte Por Amar Mais’, que devia ter sido ‘deixem de fumar, porque fumar mata’, passou a ser ‘deixem de fumar, porque fumar não é para princesas’. Há que notar aqui que este filme foi, e bem, direccionado às mulheres, visto que as estatísticas demonstram que é nas mulheres que o consumo de tabaco tem vindo a aumentar, em vez de diminuir. Isso, para mim, é absolutamente aceitável, justificável e lógico. O que não é lógico, é deixarmos as meninas e mulheres com esta carga moral de não deverem fumar porque isso significa que não serão ‘princesas’. Qual é a validade deste argumento? Porque é que mulher tem de ser princesa? E, se não tem de ser, quer dizer que mulher ‘não-princesa’ já pode fumar? E se estamos a tentar que meninas, adolescentes e mulheres deixem de fumar, qual é o impacto que ‘uma princesa não fuma’ terá numa adolescente de 16 anos que fuma? Será que ela quer ser ‘princesa’, e vai pensar ‘ai, espera, fumar não é coisa de princesa’ e parar de fumar? Porque é que exploramos esta obsessão com a mulher ‘pura’ para passarmos uma importante mensagem de saúde pública?

Esta campanha anti-tabágica sugere que a minha saúde está intrinsecamente ligada à minha moralidade. Digo minha, porque sou mulher – esta campanha foi direccionada a mim. Dizem-me, neste vídeo, que não posso fumar porque uma princesa não fuma. Não porque o tabaco me mate, não porque fumar magoe pessoas à minha volta, não porque poupe dinheiro ao SNS, mas porque tenho de ser senhora de respeito e comportar-me como tal. Não aceito esta mensagem. Sou livre das minhas escolhas, e tomarei as minhas decisões com base em informação útil e não em chantagens morais.

Esta tentação de ligarmos a saúde e o corpo de uma mulher à sua moralidade tem, eventualmente, graves consequências. Enquanto não soubermos reconhecer o corpo de uma mulher como um corpo livre de cargas e conotações morais, as mulheres não receberão o cuidado médico a que têm direito. A incapacidade de encararmos sem julgamento a saúde de uma mulher é o que perpetua ainda o estigma social quanto ao aborto (‘quiseste ser leviana, agora aguenta’). Esta é a mesma lógica que levanta a pergunta ‘o que é que levavas vestido?’ quando uma mulher nos diz ter sido violada. Não estou a tentar comparar a curta metragem de que aqui se fala com estes casos mais extremos – bem sei que estamos a falar de coisas (e seriedades) diferentes. Mas falamos, isso sim, de uma cultura que perpetua a obrigação de uma mulher de se comportar de acordo com uma moralidade subjectiva, e que julga a mulher que com essa moralidade não compactue. Este julgamento social, como se vê, permeia até às instituições que têm a responsabilidade de cuidar e proteger todos os cidadãos, homens e mulheres, de igual modo.

O problema maior é que nem sequer nos apercebemos desta carga moral que sempre depositamos nas mulheres. Nem damos por ela, de tão normal que é. Mas quantas vezes admiramos um homem promíscuo e julgamos uma mulher igualmente promíscua? O sexismo existe, sim, por muito que subtilmente se manifeste; é preciso estar atento a essas situações, e corrigi-las.

2 comments

  1. Gosto de perceber que a abordagem ao tema é plena. Isto é, focas todas as perspectivas desde as quais se pode analisar a questão. E isso é o correcto. Esgotadas as opções, ressaltados os aspectos positivos, não há como concluir que, efectivamente, há juízos morais implícitos, que, mais uma vez, se dirigem às mulheres. Ninguém se lembraria de criar um apelo destes com a frase “Um príncipe não fuma”. E é aqui que se esconde o sexismo.
    Fumar é mau e os incentivos à abstinência são úteis e necessários. São-no por motivos de saúde, económicos e por todos os que a nossa consciência ditar. Não o serão nunca pelo facto de ser, ou não, aceitável em sociedade. Muito menos quando se dirige ao um determinado sector da sociedade. Menos ainda quando esse sector da sociedade já está farto de ser julgado pelo seu comportamento moral.

    Aplauso!

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    1. Li tantos comentários a este tema dizer ‘se fosse um príncipe, não havia problema’. Se fosse, seria igualmente problemático, mas como dizes nunca seria, nunca isso passaria pela cabeça de alguém. E aí vive o problema.

      Muito farta de ser julgada à luz destas moralidades a que não reconheço autoridade.

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