Manchester Bees Still Buzz Framed Prints By Joekeo Redbubble

Manchester: calando o terrorismo com música (e abelhas) de amor

Manchester, uma cidade no norte do Reino Unido, foi alvo de um ataque terrorista no dia 22 de Maio de 2017. Durante um concerto da cantora americana Ariana Grande, e num dos maiores espaços de espectáculos da cidade, uma bomba rebentou às 22:31. A sala estava cheia de adolescentes fãs da Ariana Grande e dos seus pais. A vítima mais nova tinha oito anos, a mais velha cinquenta e um; a maioria tinha cerca de catorze, quinze anos. Vinte e duas pessoas morreram, cinquenta e nove ficaram feridas.

A Muslim man named Sadiq Patel comforts a Jewish woman named Renee Rachel Black next to floral tributes in Albert Square in Manchester, Britain May 24, 2017. REUTERS/Darren Staples
Um homem muçulmano, de nome Sadiq Patel, conforta Renee Rachel Black, uma mulher judia, junto ao tributo floral em Albert Square, em Manchester, a 24 de Maio de 2017. Créditos da foto: REUTERS/Darren Staples

Seguiu-se o normal horror, choque, desespero e lágrimas, não só das famílias das vítimas, mas de uma cidade inteira. É normal nestas alturas que se levantem vozes de angústia, de fúria, de vingança. Mas, em Manchester, assistiu-se a um fenómeno diferente: em vez de mergulhar em fel, a cidade inteira juntou-se numa onda de amor. Uma semana depois do ataque terrorista, Ariana Grande volta a Manchester e, com os Mancunians (assim se chamam os residentes de Manchester) e muitos outros artistas, entre eles Robbie Williams, Miley Cyrus, Stevie Wonder, Pharell Williams, Little Mix, Black Eyed Peas e Justin Bieber, cantaram o amor contra o terror. Milhares de pessoas desafiaram o medo e encheram um estádio para juntar as suas vozes e, por entre infindáveis lágrimas, fazer soar uma enorme onda de união e amor, sempre o amor – chamaram ao concerto One Love, Manchester (um amor, Manchester). Subiram ao palco crianças que sobreviveram ao ataque e, por toda a parte, a abelha que há muito é o símbolo da cidade, ergueu-se como símbolo também de força.

Mas Manchester não ficou por aqui. As pessoas agarraram-se umas às outras para superar a dor da perda e encarar de frente o medo que, tendo sido desenhado para as paralizar, só as impulsionou para a acção. Nos meses seguintes, vários coros constituídos pelas vítimas foram-se juntando, a música sempre o bálsamo para as feridas dos traumas trazidos pela bomba que detonou na Manchester Arena. No primeiro aniversário deste ataque terrorista, os Mancunians voltaram a juntar-se, ainda por entre lágrimas. Quiseram mostrar não só que não esqueceram a tragédia, mas também que não deixaram que azedasse o amor. Juntaram-se os coros das vítimas, artistas locais e internacionais, e de novo se fez ecoar pelas ruas de Manchester o grito harmonioso de coragem, de desafio ao terror, de quem se recusa a ser prisionerio da dor, do medo. Chamaram a este concerto, desta vez, Manchester Together (Manchester Junto). Cantaram-se músicas que evocam amor, incluindo aquela que se tornou o hino deste movimento de paz Mancuniano, chamada Don’t look back in anger (não olhes para trás com raiva), dos Oasis. O sentimento deste evento foi de união, de paz, de superação, de perdão, de amor… mas foi-me impossível não imaginar o que estas imagens, de um povo inteiro mais unido que nunca, teriam provocado nas mentes das pessoas que planeiam semear discórdia e terror com ataques semelhantes ao de Manchester. Se era terror que queriam ver nestas caras, vêem antes a provocação de um povo que se recusa a deixar-se subordinar ao medo. Se queriam discórdia, criaram união. Se queriam um silêncio assombroso, levantaram-se milhares vozes em harmonia. Se queriam prisioneiros, as pessoas saíram à rua em massa. E as suas vozes elevaram-se aos céus, o ano passado e este novamente, para lembrar que o terror em Manchester não tem poder. Quiçá o vento tenha levado estas vozes ao resto do Mundo.

Haverá quem, lendo estas linhas, pensará que isto é tudo muito bonito, mas no fim de contas não resolve o problema. Permitam-me que discorde. E discordo, primeiramente, com base na definição de terrorismo, tal como se apresenta em qualquer dicionário de português: uso deliberado de violência, mortal ou não, contra instituições ou pessoas, como forma de intimidação e tentativa de manipulação com fins políticos, ideológicos ou religiosos.

Ora, sejamos claros: o terrorismo é usado como medida de coacção, como forma de obrigar alguém ou alguma instituição ou governo a ceder a determinada exigência. Em particular, o terrorismo islâmico (que se regozijou com o ataque a Manchester) procura, desta forma bárbara e cobarde, alterar as políticas ocidentais que parecem sempre decidir ser essencial bombardear países do Médio Oriente. Tentamos combater fogo com fogo, e ficamos surpresos que não funcione. Mas vamos pensar nisto: se, deste lado, achamos razoável reagir-se a um bombardeamento com outro, quando uma bomba cai do outro lado, porque não achamos razoável que a resposta seja igual? Gostamos de pensar que somos bondosos, e evitamos que mulheres e crianças sejam vítimas das nossas acções militares. Mas tentem imaginar-se a criança cuja família morreu alvo de uma bomba – não cresceriam, também, a desejar a morte do país que a detonou? E assim ficamos, num ciclo vicioso. Combatemos terrorismo com terrorismo, cada um justificando o detonar da sua bomba com o argumento que acha mais válido, incapazes de aceitar que não há argumento que valide tal barbaridade, nem a este nem oeste. Podíamos continuar nesta linha de pensamento e perguntar a nós mesmos: se queremos paz no mundo, porque vendemos armas e material destructivo a países que sabemos usar terrorismo em vez de diálogo para satisfazer os seus fins políticos? Lembremos que inúmeros países ocidentais, como os EUA e países europeus, têm contractos milionários de venda de armas com países agressivos e instáveis do Médio Oriente. Porque é que lhes pomos as armas nas mãos? Mas isto são panos para outras mangas, quem sabe, outro artigo.

Há décadas que bombardeamos países como resposta a afrontas. Há décadas que estamos neste paradoxo de dizermos querer paz, mas provocarmos a guerra. Há décadas que tentamos resolver problemas complexos com violência, numa tentiva vã de os pulverizar. E, como se vê, até agora as nossas atitudes não têm funcionado. Precisamos de uma atitude diferente.

Manchester e os Mancunians demonstraram uma força e carácter sem igual, e mostraram-nos como, de facto, se luta contra o terrorismo. Como se faz a diferença necessária para mudar o Mundo. É assim, como Manchester nos mostrou, que nos permitimos a usar a força maior que há neste Mundo, que é a do amor. É saindo à rua, abraçando o próximo, permitindo-nos chorar e secar as lágrimas uns dos outros, é saber não beber do ódio que nos servem. É saber desafiar o objectivo destes ataques cobardes, elevarmo-nos acima deles e sabermos mantermo-nos firmes. É dizer-lhes: terrorismo não funciona, o terror aqui não tem efeito, não tem poder. Sentem-se antes à mesa connosco, e vamos conversar. Sem medo. Com coragem. Apesar da dor.

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