O caminho e as botas

Há dias em que me sinto cansada. Mas cansada de espírito. Escoam-se de mim todas as forças que dia-a-dia mundanamente me levam um pé para a frente do outro, e esgota-se toda a luz que acelera o meu peito de um sonho para o próximo. Nestes dias, nestes momentos, vejo mesmo o abismo. Falha-me a certeza irracional de um nascer do Sol certo e perco a visão do amanhã. Existo, só: respiro, lenta e conscientemente, tentando ver em cada subir do meu peito uma vitória sobre a morte. Diz-se, por aí, que o melhor da vida está nas pequenas coisas, nas pequenas vitórias. Talvez assim seja.

Sou suficiente?

Talvez haja neste Mundo alguém mais que se sinta assim: como um daqueles ratinhos que eu nunca tive que sobe para uma roda de onde, por mais que corra, que se esforce, que se exalte, que se morra de cansaço, por mais que tente – nunca irá a lado nenhum. Melhor, irá para onde vamos todos, invariavelmente, mas esse sítio ninguém sabe ainda onde é ou como se parece. Alguns dizem que não existe. Eu, não sei. Mas soa pacato.

Chegarei alguma vez a algum lado?

Talvez o erro esteja em tentar chegar; diz-se, também, que a melhor parte é a viagem. Mas a minha viagem pouco tem tido de prasenteiro, mesmo reconhecendo dois pontos fulcrais acerca da mesma: primeiro, que fui eu que a tracei e, segundo, que ela é viagem ainda. Mas – caramba! – há viajar de burro e há viajar descalça! Porque não me deu Deus umas botas?! (Talvez porque não exista.) Dizem-me, por vezes, que as botas estão lá mais à frente (provavelmente onde Judas as perdeu), mas não me sabem nunca precisar a que distância desta estrada as encontro. Creio, cá para mim, que também não sabem, mas acreditam. E em acreditarem eles têm vindo a fazer-me a mim acreditar também. Mas têm a temeridade, veja-se, de dizer-me que a crédula – a mais crédula! – sou eu! Que eu acredito mais que eles! Mas que opção me deram?!

Um dia agruparam-me com uns quantos estranhos e perguntaram-nos: se fosses num avião que caiu no deserto, o que fazias? Tens duas opções: ficas onde estás, ou vais à procura de ajuda. A pergunta pareceu-me completamente idiota, porque na minha mente não houve dúvidas: pus-me imediatamente a caminho. E assim estou eu, nesta viagem da vida, conforme pus os pés à terra pus também os pés ao caminho. E ia descalça, e descalça continuo, como me tenho vindo a queixar até aqui. Mas caminhando vou indo, entre a certeza de não sair do sítio e a possibibilidade de achar as botas, invariavelemente escolho a procura. E eles, chamam-me de forte, corajosa, destemida.

O problema é que, certamente no caso do avião despenhado no deserto, a resposta certa era ficar quieta e esperar que me encontrassem. (Mas e se eu me quiser encontrar a mim?)

One comment

  1. Bem vinda ao mundo dos pobres com vontade de vencer! Há os que nascem com o caminho desbravado, mas nem por isso se demonstram mais felizes. A tua reflexão remete para o sentido da vida. É uma questão com resposta eternamente suspensa, apesar de tudo o que tentemos para a resolver. Há uns tempos ouvi a seguinte reflexão: cada humano consome, diariamente, um pouco mais de um quilo e meio de alimentos, como vivemos em média setenta e cinco anos, chegaremos a fim da nossa vida tendo ingerindo quarenta e duas toneladas de alimentos; como o nosso corpo expele, mais tarde ou mais cedo, fezes na mesma proporção, expeliremos, ao longo da nossa vida, quarenta e duas toneladas de excremento; é essa a nossa herança? Ou queremos fazer algo de diferente, para melhor? Estaremos na vida, passaremos pelo mundo, ou viveremos efectivamente? Queremos que a nossa passagem terrestre seja marcante, ainda que somente para os que nos são próximos, ou queremos ser meros consumidores de alimentos e produtores de excremento.
    Estas são as perguntas que nos devemos fazer. Fazer a nossa parte para que a humanidade seja a cada dia melhor. Lutar, ainda que as recompensas sempre nos pareçam parcas face ao esforço despendido. Eu bem conheço esse sentimento, e sei que tu também o conheces muito bem.
    Vai em frente! Acredita em ti e na vida! Ainda que passes a vida a lutar, terás sempre a recompensa da consciência tranquila.

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